26 de agosto de 2010

Tenho medo de me habituar à tua ausência... e deixar de sentir a tua falta.

25 de agosto de 2010

A beleza que nos esconde

As pessoas são um nojo. Somos maus, feios e cruéis por dentro. Temos a horrível tendência para cometer as maiores atrocidades aos outros seres humanos.
Hoje vi a beleza que nos esconde despir-se para mim e num acto nada sensual revelar os tenebrosos contornos da sua pele. As pessoas são más, feias no seu âmago por muito sublimes que se desenhem. E hoje vi com clareza o doce mel com que se cobre o fel que nos corre nas veias, senti os espinhos venenosos que se escondem nas folhas verdes à sombra da mais bela rosa.
Hoje, a humanidade não me serve porque é o reflexo do mais repugnante ser, que nada tem de humano.

12 de agosto de 2010

Breves instantes

Às vezes não sei o que te dizer. Porque, às vezes, duvido de tudo, questiono tudo o que me rodeia e sinto medo. Às vezes não sei encontrar as palavras para te ler. Não sei ver nos teus olhos aquilo que quero acreditar que sentes. Há momentos em que os sinais se misturam e nada do se move à minha volta se encaixa. Tudo se mistura numa sinfonia sem maestro. E por breves instantes nada do que represento sou eu, nada do que respiro é meu.

Por breves instantes, respirar é involuntariamente voluntário e o sal do corpo é difícil de guardar. Por momentos, nada faz sentido e tudo grita... e o teu silêncio grita ainda mais, até que a música dos dias se consome num latejar compassado e mudo, como se pedisse desculpa por não poder parar e suspirar de alívio. Por breves instantes tudo se mistura e nada encontra o seu lugar. Nesses instantes, pega-me na mão e aperta-a até que o universo fique completo outra vez.

5 de julho de 2010

Em silêncio, viver a cantar.

Um dia disseram-me: os pássaros que não cantam podem voar mais alto. Vivem o silêncio na concentração de chegar mais longe e não perdem o rumo. Mas os pássaros sem voz são aqueles que eu vejo descansar nos ramos mais escondidos das árvores. São os que se aninham nas sombras na expectativa de um raio de sol que os inspire. Para mim, esses são os pássaros que ainda não sabem o que é a inspiração. Não sabem que têm voz e que as melodias desenhadas no vento tornam os dias mais intensos. Estão perdidos entre os fins-de-tarde que se esquivam dos dias e aqueles que descansam nas horas que abrem as portas à noite. Estão esquecidos nas folhas que caem das árvores a cada amanhecer, ficam em silêncio sem saber como cantar. Para mim, esses pássaros voam alto mas não respiram fundo, não sorvem o ar mais puro porque não conhecem a alegria das melodias que podem entoar.

Mas acredito que, um dia, também eles vão aprender a cantar.

23 de junho de 2010

Hoje não me bastam meias-palavras

Há dias que não pedem licença. Vão entrando lentamente no nosso futuro e encaixam-se na bainha das semanas, onde ninguém se lembra de procurar. Há dias que, de tão pouco dias que são, são quase uma afronta ao ritmado e infalível calendário.
Há dias em que as palavras se esquecem de ser palavras e os olhares deixam de ter significado. Nesses dias, os gestos não bastam, os planos não servem como alicerces para construir o amanhã e as meias-palavras são só uma desculpa para fugir de tudo o que nos assusta.  São desabafos por terminar, ataques mal desenhados que se reescrevem em repetição contínua e que nunca conseguem chegar ao fim. E hoje não me bastam meias-palavras.

31 de maio de 2010

mergulhar

Fugir. Esconder-me de tudo. Fechar os olhos e sentir o conforto do silêncio. Mergulhar no azul e sentir a calma que me ocupa, que não deixa espaço para mais nada. Nem uma nódoa, nem uma dor, nenhuma dúvida. Esquecer os farrapos de areia molhada na pedra gasta do tempo. Esquecer as noites de trovoada, os fins de tarde cinzentos que molham as janelas e todas as manhãs que custam a começar... Respirar fundo e mergulhar de olhos abertos, sem medo de me afogar.

10 de maio de 2010

Balanço

Lento, compassado. O corpo esquecido num berço de madeira sem protecções. As ondas de dor abraçam-na suavemente e o vento lava-lhe as lágrimas que não quer deixar cair. Os dedos apertados na corda grosseira dão-lhe a segurança insegura de quem raramente tem a certeza mas nunca pensa em duvidar. Os pés cruzados amarram a vontade de fugir e o balanço continua. Insistente, regular, constante. Como se fosse durar para sempre...

30 de abril de 2010

Começar outra vez

Sem recomeçar. Dar os primeiros passos como se nunca os tivesse dado. Escolher descuidadamente o caminho sem pensar nos quilómetros a percorrer. Respirar fundo sem o peso das responsabilidades e começar outra vez. Como se nada fosse. Como se o mundo só ficasse completo com um sorriso. Como se fossem os meus dedos a desenhar as ondas do mar. Começar outra vez. Sem hesitar, como da primeira vez.

27 de abril de 2010

Enche-me a casa de balões

Faz-me uma surpresa pouco surpresa que me deixe sorridente. Faz desenhos nos balões e deixa-os espalhados pela casa. Escreve o que quiseres em cada um deles e não sejas tímido com as cores, todas elas combinam comigo. Prometo que vou ter cuidado para não rebentar nenhum e quando perderem lentamente o ar, vou guardá-los. Sabes que adoro ver como ficam pequeninos os desenhos e como ficam perfeitas, naquele tamanho, as letras que escreveste em capitulares no balão cheio.

22 de abril de 2010

Girassol

O calor avultava o cheiro a bolachas de canela. No ar quente, o aroma característico de uma noite de verão. E as bolachas acabadas de fazer, ainda a fumegar, em cima da mesa do jardim.


Para ela tudo tem um cheiro característico, mesmo o girassol confuso do jardim, que nunca persegue a luz do sol. Acha que é por causa do orvalho que a manhã cheira a fresco e a comida acabada de fazer. Para ela é tudo tão óbvio. E quando lhe vejo um sorriso acidental apertado entre os lábios, sei que naquele momento ela está feliz. 


Lembro-me de ter tirado uma fotografia ao girassol do tamanho de um prato, que cresceu à toa de uma semente que o papagaio deixou cair. Ela sempre gostou daquela flor. Era confusa, como ela. Era gigante e estava sozinha num ambiente que nunca se preparou para a receber. Era uma lutadora e tornava o verão mais alegre. Era amarela, tinha um sorriso em cada pétala e resistia. Era isso que a tornava especial.

13 de abril de 2010

Happy XL

A música é serena. O ar cálido abraça o fim-do-dia como se não quisesse receber a noite. Num terceiro degrau de uma qualquer escada, ele fita os ténis sujos, destruídos, vividos. Relembra os sorrisos XL que via na cara de todos os amigos e que também ele ostentava, apertado entre as bochechas.
Tem uma vontade imensa de recuperar os momentos espontâneos, pintados a gargalhadas, emoldurados com abraços. Deixa a música dançar noutro ritmo e levanta-se demoradamente. Olha em frente e vê uma expressão que reconhece, um sorriso que sabe desenhar com os dedos... XL, vindo de outros Verões.

6 de abril de 2010

Escrevia

Pegou na caneta e desenhou as letras no papel. Com receio, misturou a tinta escura com a cor seca do caderno. Sem querer, despejou as palavras que ainda não sabia estarem escondidas atrás da pele... naquele lugar onde se guardam os medos. Desenhou cada letra com cuidado, com a delicadeza de quem sabe por onde começar. Mas tinha a certeza de que não sabia. As letras juntavam-se intuitivamente, como se cada uma delas só fizesse sentido rodeada de outras formas e sons. Tentava, a cada frase, desfazer-se da culpa difusa que lhe pendia nos nós dos dedos. Não sabia de onde vinha, não conhecia a sua origem, nem sabia definir a sua génese. Sentia-a, gelada, a consumir-lhe a pele e a guiar-lhe as mãos pelos recantos do dia.
E os dias foram passando, a languidez das horas a pesar-lhe nos seus dedos e a urgência de escrever a marcar o ritmo. Apesar dela, o mundo continuava, o tempo corria atrás de tudo o que nunca voltaria. E ela, sentada num qualquer vão de escada, esquecia as curvas apertadas do caminho e escrevia. Não sabia bem porquê, nem sobre quê, mas... escrevia. Até que um dia levantou a caneta do papel e já não sabia quem era.

21 de outubro de 2009

Estou em obras

à procura de um novo template... e de novas ondas (leia-se tempo) de inspiração!

19 de agosto de 2009

caminhar

As frases, que tantas vezes reescrevi em surdina na minha mente, soltas nas tuas mãos: distraidamente penduradas nos teus dedos frios.
Fecho os olhos e obrigo-me a sentir os pés firmes no chão, aperto os lábios na certeza de amordaçar as palavras e respiro fundo. Dás-me a mão e acompanho o teu movimento, com a leve esperança de sentir o mundo dentro de mim. Balanças o corpo num andar despreocupado e sorris entre suspiros, pergunto-me se isso significará que estás feliz. Procuro o teu olhar, mas há tanto ainda para ver, tanto que os meus olhos querem absorver...
Tu, de olhos fixos no horizonte, espalhas os teus sonhos pelo caminho que ainda percorro contigo, e olhas para longe. Tão longe, que não me vês mergulhar de mansinho na paisagem e desaparecer entre o sol e a noite. Eu, guardo um sorriso para ti e vou.

8 de julho de 2009

Sentado no muro de pedra, esforçava-se por equilibrar confortavelmente nas suas pernas a cabeça de alguém que o fazia feliz. Ela sorriu e ali, entre o fim de um dia e o início de outro, perguntou-lhe despreocupadamente:

- Alguma vez viste o Sol nascer?

- Não, mas o que tem de especial?

- Como assim? É mágico!

- Oh, por favor! É esperar, cheio de sono, que alguma coisa aconteça para depois perceber que já aconteceu!

- Ver o Sol nascer é muito mais do que isso. Não te rias. É mágico, a sério. Se for depois de uma noite de festa é sentires o cansaço em proporção à felicidade, é ansiares pelo conforto da tua cama, sabendo que te divertiste. Se for a manhã de horas e horas à conversa é acomodares a rouquidão na conversa e o sorriso nos lábios...

- Sim, sim. Isso é tudo muito giro, mas e se for depois de uma noite de discussão ou depois de uma má notícia?

- Se te sentires sozinho, desorientado... se for naquelas alturas em que nada parece fazer sentido e tudo te magoa... aí, o nascer do Sol é a prova de que é possível começar de novo!

24 de junho de 2009

Esconde os olhos, inclina o pescoço. Mexe, nervosa, no cabelo e pensa que há assuntos que são como as árvores mais resistentes, se não forem cortados pela raiz nunca mais deixam de nos perseguir. Durante o dia, a mente fervilhou entre memórias e fantasias, não foi capaz de controlar o seu pensamento.
E, no regresso a casa, caminhou pela rua, pelo parque, tem a sensação de ter andado pela cidade inteira. Não viu nada, não viu ninguém, deixou que os seus passos a guiassem para um lugar estranho. Um lugar que ela é obrigada a conhecer a cada fim de tarde, quando o dia atira os seus restos para o caminho e força a noite a dar os primeiros passos.
Agora na quietude da sua sala sente-se afastada do mundo, não, afastada não: escondida. Tem a aparelhagem no volume máximo, a música quase lhe fere os ouvidos, mas aguenta. Porque, assim, consegue manter todos os pensamentos afastados da mente.

4 de junho de 2009

Escrever-te

As letras misturam-se e as frases que construo levam-me a ti. Finjo que é falta de inspiração e rasgo as folhas que escrevi, mas a cada recomeço encontro o teu sorriso e não sei como apagá-lo da mente. Apetece-me esquecer tudo, limpar as horas e voltar à página em branco para que, de uma forma menos inocente, eu consiga contornar tudo o que me fez chorar.
E a verdade é que as linhas que traçamos no chão nem sempre se mantêm firmes, rectas e intransponíveis. Os dias forçam-nos a escolher as palavras, a olhar o chão que tencionamos pisar antes de o fazer, a provar antes de comer. E é tudo tão simples que chega a tornar-se complexo: uma borboleta não é só uma borboleta, mas é a forma como olhamos que a transforma em muito mais do que isso. Tudo à nossa volta se ajusta ao nosso olhar e, quase sem saber, fazemos da vontade de viver uma desculpa para vergar o quotidiano aos passos que damos.
Mas, para já, quero que as palavras me obedeçam. Preciso que as minhas palavras deixem de ser tuas e voltem a submeter-se a mim. Quero que o escrever, sobretudo o escrever-me, não seja escrever-te.

25 de maio de 2009

À deriva

Sentimos tantas vezes que perdemos o pé, que estamos a nadar contra a corrente, à deriva. E à medida que nos esforçamos por manter o calor no corpo, esquecemo-nos de procurar o pulso. Tudo gira à nossa volta e, na necessidade de acompanhar o movimento, perdemos o ritmo que nos acelera o coração.
E de repente o esforço que fazemos para tentar respirar deixa-nos exaustos, de repente tudo o que nos parecia certo deixa de o ser e sobramos nós... verdadeiramente sós.

8 de maio de 2009


Os beijos roubados têm muito mais sabor...

...há quanto tempo não me roubas um beijo?

6 de maio de 2009

Inquietude

Irrequieta, muda de posição a cada segundo que passa. As mãos vazias, tão cheias de nada. Olha em frente e sente o tempo escorrer-lhe nos dedos como se os dias se atropelassem nas horas. Tudo fervilha, as luzes são intensas e brilhantes e o movimento perpétuo. A respiração entrecortada de quem não consegue controlar as batidas do coração, nervos, ansiedade, tudo o que se esconde nas reacções físicas. Sente a transpiração nas palmas das mãos e apressa-se a limpá-la nas calças de ganga, cruza as pernas e volta a bater o pé ritmadamente. Não sabe ao certo o que a incomoda, mas sabe que não pode ficar assim durante mais tempo.

Pára. Respira fundo e tenta acalmar-se por entre o desespero de não perceber a razão de tanta agitação e os olhares agitados que a atacam. Nunca foi assim, as pessoas não a assustavam. O que mudou?