13 de março de 2012

Esquece

Esquece a luz do sol que te aqueceu. Esquece a voz que te acalentou o sonho. Não te lembres de relembrar os momentos desenhados a sorrisos e brilhos no olhar. Esquece e recomeça. Aquilo que esqueces não te pode magoar.

30 de dezembro de 2011

Rio

- Então, não estás a olhar!
- Não preciso, vejo o rio nos teus olhos.
Ela riu, boca escancarada, dentes brilhantes a reflectir o sol: achou aquilo tão foleiro que não conteve o riso. Mas gostou.
- Vês? O meu charme é irresistível.
Olhou para ele com um sorriso de gozo comprimido nos lábios. Ele continuou:
- Gosto de gargalhadas fáceis. E a tua é deliciosa.

28 de novembro de 2011

Encontros

Não a ouvi mas senti-lhe o cheiro. Uma lufada de ar fresco com um travo doce que interrompeu o meu pensamento. Não sei se mais alguém a sentiu, desde que perdi a visão o meu olfacto apurou-se.

Com alguma falta de inocência toquei-lhe nos pés com a bengala, foi uma provocação maliciosa porque sabia perfeitamente onde estava o corpo dela - mas às vezes gosto de tirar partido da minha condição. Pedi desculpa apressadamente e ouvi-a responder "não faz mal" numa voz quente e segura, quase cerimoniosa. Senti-lhe um sorriso nas palavras e isso obrigou-me a sorrir também. 

14 de novembro de 2011

Hipocrisias

Sento-me e olho à minha volta. As malas e mochilas carregam roupa, comida, livros e memórias que nem sempre sabemos que trazemos conosco. Os rostos nada me dizem, os olhos fugidios escondem-se em mundanidades e afastam a perturbação que lhes rouba o sono. A vida é feita de hipocrisias. 

E as malas seguem fechadas com cadeados coloridos que usamos para desencorajar os mais curiosos. Os segredos guardados que escondemos com os segredos que partilhamos. As palavras que tememos encobertas pelas frases que construímos à força. Os sorrisos que montamos como jaulas para controlar o gelo da angústia tornaram-se nos nossos sorrisos mais genuínos. Dizem-me que a tristeza é momentânea e que a felicidade vai e vem, que vivemos numa fronteira beligerante como refugiados e que procuramos incessantemente um equilíbrio que nos desequilibra.


A vida é feita de hipocrisias.

18 de outubro de 2011

Todos nós temos histórias às quais não queremos pôr um fim.

17 de outubro de 2011

Quando

Quando não temos forças, sorrimos e deixamos que a maré nos leve para longe. Quando acordamos, esperamos que o dia se desdobre sem sobressaltos que nos façam perder o rumo. Quando perdemos o rumo, procuramos um lugar seguro que nos aconchegue a mente e a alma.
Às vezes, quando te digo que sim estou a tentar dizer-te que não. E quando sorris não sei o que queres que eu pense. Quando as horas se atropelam sem sentido, vamos correndo atrás do tempo e contornamos o que nos faz falta. Fingimos que está tudo tão bem como estava. Que o presente é um espelho embaciado do passado, só precisa de se habituar à temperatura. Quando tropeçamos esquecemos que podemos cair... e continuamos a andar.

É um jogo desconexo e sem regras que nos conduz pelas rotinas. É uma relação simples de consequências que nem sempre queremos confirmar. É um atropelo ordenado pelas ruelas do pensamento. Ninguém perde, ninguém ganha. O jogo não é nosso.


24 de setembro de 2011

Suspiro

Estou cansada de puxar, de tentar, de sentir. Estou cansada e às vezes tenho vontade de desistir. Por isso suspiro. Suspiro baixinho para ninguém perceber. Suspiro por dentro para tentar esquecer. Suspiro porque para mim importa, porque não consigo fazer uma pausa para pensar. Suspiro porque não quero pensar, porque não posso fugir. Suspiro porque não consigo parar de respirar

21 de julho de 2011

Da última vez foi diferente, mas há ciclos que se repetem, dos quais não consegues fugir por muito que tentes. Armadilhas que o teu cérebro cria para defender qualquer outra parte do teu corpo. Da última vez, quando tive dúvidas, ignorei-as. Deixei que se apagassem com a chuva quente e o vento de outros lugares. Quando dei por mim já eram certezas e não havia nada a fazer. Desta vez ouço as dúvidas com a força de um trovão,não as consigo ignorar. Mas não sei como as desenhar nas palavras nem remexer nas luzes de aviso da percepção. Não sei o que fazer com elas. Mas tenho medo que se transformem em certezas. Daquelas frias, que mordem os dedos e as lágrimas.

16 de junho de 2011

certeza


Às vezes tenho a certeza. Uma certeza gélida que me aperta a garganta. Uma certeza que me rouba as forças e me escoa os olhos.  Não é um leve sopro. É uma angústia espessa que me corrói os pensamentos e me envena as palavras. Não é uma dúvida. É uma resposta nascida de uma pergunta por fazer. E às vezes essa certeza apodera-se de tudo o que toco com o olhar. A certeza de que não vamos sobreviver a isto.

30 de maio de 2011

Chegar, chegamos.

Às vezes é preciso acreditar pela simples necessidade de continuar. Às vezes é preciso pôr as questões de lado e seguir, sem desviar o olhar. A estrada pode ser íngreme e tortuosa, podemos chegar com os joelhos esfolados e a testa suada, mas chegamos. Às vezes é preciso acreditar nisso... só nisso.

4 de abril de 2011

Nada mudou

Nada mudou. Mas, de alguma forma, nada é o mesmo. Como é que sabemos que algo se partiu? Quando é que percebemos que a ligação se perdeu? Qual é o ponto em que temos a amarga certeza que desligámos aquilo que nos dava energia? Sentir que nada mudou, mas que algo mudou.
Sentimo-nos escorregar no escuro até um refúgio que não existe. O conforto é a pele dormente, o descanso é a mente vazia. Como é que nos apercebemos de que deixámos de usar o instinto e passámos a usar a razão? A razão aconchegante que nos deixa tão áridos e secos.Ouvimos tantas vezes as mesmas frases… se nada mudou porque não é o mesmo? Descemos ao fundo, procuramos incessantes até ter o coração agitado e as mãos doridas. E depois percebemos. Sentimos a gota gélida da compreensão na nuca. Sentimos as mãos mais vazias do que nunca. Se nada mudou, a mudança aconteceu em nós.

22 de março de 2011

Escudo


Escureces. Encostada a um canto do dia para que ninguém te veja. Esperas alguém? Escutas. Escondes-te. Escrava do que te dizem que és. Esqueces o que te levou até ti. Escreves na tua mente o que não te atreves a dizer. Escavas o poder que as palavras te dão e que não queres usar. Esculpes as letras até não restar nada. Nem sentido. Nem ordem. Nem dor.

7 de março de 2011

estragada.

- Acho que estou estragada.
- Não és uma boneca que cai na água e fica estragada. Não é assim que funciona.
- Mas sinto que se partiu algo aqui dentro.
- Não sejas parva, estás só cansada.
- Dói-me a cabeça, mas não é uma dor que passe com um comprimido.
- Toma um na mesma.
- Estou estragada.
- Pára de dizer isso, não estás nada estragada. Onde é que foste buscar isso?
- Não sei, sinto-me estragada.
- Toma. Isto vai fazer-te sentir melhor.
- Não quero. Não me sabe bem, não me serve para nada.
- Ajuda. Confia em mim. E agora dorme. Amanhã vai ser um dia melhor.

31 de janeiro de 2011

Fé.

Percebo agora porque é que tanta gente sente a necessidade de acreditar num deus acima de tudo.
É tão fácil perder a fé nos Homens.

28 de janeiro de 2011

Medos

Segredos, receios, medos. Atilhos que nos amarram os movimentos e pedras que nos agarram ao fundo. Todos os medos que não ousamos pronunciar, com um redundante medo de que se tornem maiores e piores, encostam-se num cantinho de nós e descansam. Até que um dia há um barulho, uma luz, um tilintar na nossa alma que os acorda, que os traz ao palco e que os põe a gritar. Nenhuma das defesas que tínhamos construído distraidamente nos protege e nada aparenta encaixar. Então fechamos os olhos. Esperamos. Respiramos de pulmões apertados e confiamos que tudo foi um pesadelo, que vamos ficar bem, que nada disto vai deixar marcas. Mas deixa. E vamos coleccionando cicatrizes de guerras que nem sempre quisemos. E vamos escondendo as marcas por baixo de capas bonitas, brilhantes, que ofuscam a dor.

5 de janeiro de 2011

Como?

Como é que se encontra o caminho quando já nos perdemos nos atalhos? Como é que se conduzem os pés cansados até ao destino se ninguém sabe se ele existe?

Os passos dados no escuro nem sempre nos levam até à luz, mas ficar imóvel na escuridão não nos tirará de lá. Foram tantas as vezes que deixámos de ser nós a conduzir, tantas as vezes que perdemos o pé e ficámos sem fôlego. São tantos os medos que nos perseguem e que olhamos através do espelho sem fugir e sem os enfrentar. Tantas razões que nos sufocam e amarram. Como é que se esquece que escondidos no escuro podem estar outros perigos?

8 de dezembro de 2010

Sentimos

Cada beijo, cada olhar e cada gesto como se fosse só nosso. Como se pudesse durar para sempre. A cada passo despreocupado, a cada sorriso involuntário caímos na certeza construída de que desta vez acertámos, que desta é que é. 
As ilusões são tão próximas daquilo que acreditamos ser verdade que vamos, de sorriso nos lábios e olhar inocente, como se não conhecêssemos o perigo. Vivemos no céu e no inferno, no calor dos sorrisos e no gelo das lágrimas, numa montanha-russa de sentimentos à qual vão saltando parafusos nas suas contínuas viagens. Mas vamos, contra a maré, a sorrir, a tentar convencer todos os que nos rodeiam de que sabemos o que estamos a fazer de que temos a certeza. Às vezes estamos certos. Às vezes sabemos o que estamos a fazer... mas na maioria das vezes estamos apenas a arriscar às cegas na esperança de sair ilesos de uma luta injusta que não envolve armas. Mas muitas vezes a realidade cai-nos nos ombros como um piano lustroso com o peso de todas as dúvidas, todas as palavras escondidas, todos os silêncios desiludidos. E nós sorrimos. Continuamos. Fingimos que estava tudo previsto e que o comboio não saiu dos carris. Será que um dia vamos acordar e perceber que já nem sequer somos nós a conduzir o comboio?

16 de novembro de 2010

Cansaço

As pessoas cansam-se, a pele desgasta-se e as palavras de tão repetidas parecem não bastar. Sucumbiste. Deixaste cair os braços e a cabeça, deixaste a respiração encaixar no ritmo constrangido do teu coração e agora não sabes por onde começar. A garganta apertada guarda todos os medos e segura as palavras que vêm do peito. Só as frases desenhadas na tua cabeça têm livre-passe até à tua língua. E tudo o que dizes chega filtrado, purificado, sem mácula de emoção.
Repetes a lenga-lenga do cansaço até te convenceres de que tudo vai ficar bem se descansares, se dormires, se puderes fechar os olhos e fingir que o mundo parou... mas nunca fica e voltas a entrar numa espiral de enganos que te protege e te corrompe. Os dias sucedem-se com a intensidade e a insistência das ondas, vão corroendo barreiras e sobras tu, apenas tu. 
Sem armas, sem lutas, sem rumo.

11 de novembro de 2010

escrito

O mundo já foi escrito. Tudo já foi dito sob a forma de palavras, de metáforas e de parágrafos desenhados a sangue quente. E de que nos serve escrever os dias sem os sentir? Que sórdido consolo temos nas palavras que escolhemos com o cuidado cirúrgico de quem não sabe o que dizer?
O nosso mundo e o outro já foram vertidos em caixinhas literárias para que, sem nunca existirem, nunca deixarem de existir. Mas o mundo pede-nos para ser escrito todos os dias, para ser vivido, partilhado. E nós escrevemos tudo o que somos, em cada passo que damos... na pressa de deixar marcados os caminhos que trilhamos.

19 de outubro de 2010

Sem cor

A rotina desgasta. Vai roendo pequenos pedaços de nós. Mas também nos mantém em movimento. Empurra-nos como se o tempo fosse uma formalidade. Esconde-nos do mundo e deixa-nos numa sala de espera em constante circulação. É lá que permanecemos em serenas expectativas. Saltamos de cadeira em cadeira à espera de mais um dia sem saber de onde nos vai chegar e que música irá trazer. E sem querer, crescemos. O mundo perde as suas formas coloridas que nos punham sorrisos no rosto. As ruas já não estão desenhadas a lápis-de-cera e as bicicletas já não trazem fitinhas de arco-íris no guiador. Chove e a chuva já não é azul, roxa e vermelha, feita de pequenas poças onde molhar as galochas... e já nem o guarda-chuva é às bolinhas.