11 de abril de 2005

Às vezes...


Às vezes é preciso falar, nem que seja só para preencher o vazio que às vezes se instala no mais recôndito dos nossos dias. Falar, conversas de café, palavras de rua, poesia, narrativas...falar e falar bem! Contar histórias, perguntar, querer saber. E quando não é preciso falar é requerido que se ouça, com toda a atenção e delícia com que nos perdemos a falar. Saber ouvir é metade de saber falar. Quem é bom orador tem que ser melhor ouvinte.
E ás vezes é necessário chorar para lavar o espírito, para limpar o pó da alma e dar brilho ao coração. Chorar e jazer entregue aos sentimentos mais profundos e fatais. Chorar, sofrer, suprimir dilacerando qualquer dor que nos assole a alma. Deixar correr a água salgada pelas faces, sentir os olhos quentes. O nosso organismo tem que libertar-se do sal e a nossa alma da dor. E depois, podemos chorar de alegria, emoção, tudo o que seja um sentimento tão intenso que leve a esta manifestação física. Porque os sentimentos que carregamos necessitam de se escoar de nós e expressá-los é a melhor forma de mostrar que continuamos vivos.
Às vezes é gritante cingir o pensamento à racionalidade para podermos esquecer que um dia precisámos de chorar por termos avançado na escuridão total, mas às vezes é mesmo preciso avançar no escuro, com os pés descalços e as mãos a tocar o vazio, à espera de encontrarem algo suave e firme onde possam apoiar o resto do corpo. E às vezes é imperativo procurar sem encontrar, esticar os dedos numa busca incessante e acabar por desistir por não acharem nada que lhes preencha o tacto.
Às vezes sentimos tanta necessidade de nos sentirmos únicos que a vida nos dói por dentro e aquilo que conservamos no mais íntimo de nós é forçado a sair.


*Publicado no jornal escolar Desafios(Trancoso) em 2004

3 comentários:

Francisco Albuquerque disse...

Mal comecei a ler o texto apercebi-me... é mesmo ela que o escreve! É mesmo a Tatiana que escreve acerca da importãncia de falar!! A verdade é que és uma comunicadora... e uma grande comunicadora!

É sem dúvida fundamental sermos nós próprios ao comunicarmos. É preciso dar aquilo que temos de melhor de nós mesmos para mostrar aos outros aquilo em que acreditamos numa vida em qu nos sentimos inúteis, fúteis, perdidos e descontrolados numa banalidade a que ousam chamar vida. Somos seres hipócritas a fazer o que fica bem fazer, a mostrar aos outros aquilo que não somos, absorvidos num vício contagiante de modas e ondas de pensamentos que não são nossos, revoltados num interior que não mostramos, anestesiados por uma mera imaginação de sinceridade. Perdemos tempo com o vulgar, dissimulamos as nossas verdades. E porquê?! Porque nos falta: " Falar, conversas de café, palavras de rua, poesia, narrativas...falar e falar bem!" - gostei muito desta parte! Aliás, adorei o texto inteiro! Tal como adorei conhecer-te e adorei ouvir-te!

Um beijo!
Eu prometo que para a próxima escrevo mais!

Francisco Albuquerque

StupiDreamer disse...

comunicar claro so podia ser!;D é preciso falar, é preciso libertar pensamentos e sentimentos, gerar e girar entendimento «Contar histórias, perguntar, querer saber.» fazer o mundo girar. aplavra como espada de guerreiro ou laço que se ata de mão a mão.
ou então falar so «por falar».para nos libertar,curar a nossa alma,afastar os nossos fantasmas.«Porque os sentimentos que carregamos necessitam de se escoar de nós e expressá-los é a melhor forma de mostrar que continuamos vivos.»
POis, «Às vezes sentimos tanta necessidade de nos sentirmos únicos que a vida nos dói por dentro e aquilo que conservamos no mais íntimo de nós é forçado a sair.»
nessas vezes que o nosso egotismo vê na solidão uma incompreensão é preciso falar e encontrar a compreensão, é mesmo preciso falar =)*

Fábio disse...

Sim...é preciso falar e mais importante ainda...é preciso dizer! É preciso que os outros saibam aquilo que sentimos e porque o sentimos. Temos que ser compreendidos e o que melhor do que as palavras? Quer sejam pronunciadas e levadas pelo vento, quer sejam "vertidas" para o papel como uma extensão do nosso próprio corpo. É preciso desabafar, sentirmo-nos abraçados pelos outros por aquilo que somos e não por aquilo que queremos ser. É preciso falar, é preciso dizer, é preciso existir e é preciso VIVER!
Gostei muito do teu texto menina Tatiana. Escreves com sentimento e com sentimentos todas as palavras têm outro sabor, outra dimensão, outra história para contar. Não o digas porque deves, di-lo porque sentes! Uma beijoca gande pa ti :D