Estou em obras

à procura de um novo template... e de novas ondas (leia-se tempo) de inspiração!

caminhar

As frases, que tantas vezes reescrevi em surdina na minha mente, soltas nas tuas mãos: distraidamente penduradas nos teus dedos frios.
Fecho os olhos e obrigo-me a sentir os pés firmes no chão, aperto os lábios na certeza de amordaçar as palavras e respiro fundo. Dás-me a mão e acompanho o teu movimento, com a leve esperança de sentir o mundo dentro de mim. Balanças o corpo num andar despreocupado e sorris entre suspiros, pergunto-me se isso significará que estás feliz. Procuro o teu olhar, mas há tanto ainda para ver, tanto que os meus olhos querem absorver...
Tu, de olhos fixos no horizonte, espalhas os teus sonhos pelo caminho que ainda percorro contigo, e olhas para longe. Tão longe, que não me vês mergulhar de mansinho na paisagem e desaparecer entre o sol e a noite. Eu, guardo um sorriso para ti e vou.
Sentado no muro de pedra, esforçava-se por equilibrar confortavelmente nas suas pernas a cabeça de alguém que o fazia feliz. Ela sorriu e ali, entre o fim de um dia e o início de outro, perguntou-lhe despreocupadamente:

- Alguma vez viste o Sol nascer?

- Não, mas o que tem de especial?

- Como assim? É mágico!

- Oh, por favor! É esperar, cheio de sono, que alguma coisa aconteça para depois perceber que já aconteceu!

- Ver o Sol nascer é muito mais do que isso. Não te rias. É mágico, a sério. Se for depois de uma noite de festa é sentires o cansaço em proporção à felicidade, é ansiares pelo conforto da tua cama, sabendo que te divertiste. Se for a manhã de horas e horas à conversa é acomodares a rouquidão na conversa e o sorriso nos lábios...

- Sim, sim. Isso é tudo muito giro, mas e se for depois de uma noite de discussão ou depois de uma má notícia?

- Se te sentires sozinho, desorientado... se for naquelas alturas em que nada parece fazer sentido e tudo te magoa... aí, o nascer do Sol é a prova de que é possível começar de novo!
Esconde os olhos, inclina o pescoço. Mexe, nervosa, no cabelo e pensa que há assuntos que são como as árvores mais resistentes, se não forem cortados pela raiz nunca mais deixam de nos perseguir. Durante o dia, a mente fervilhou entre memórias e fantasias, não foi capaz de controlar o seu pensamento.
E, no regresso a casa, caminhou pela rua, pelo parque, tem a sensação de ter andado pela cidade inteira. Não viu nada, não viu ninguém, deixou que os seus passos a guiassem para um lugar estranho. Um lugar que ela é obrigada a conhecer a cada fim de tarde, quando o dia atira os seus restos para o caminho e força a noite a dar os primeiros passos.
Agora na quietude da sua sala sente-se afastada do mundo, não, afastada não: escondida. Tem a aparelhagem no volume máximo, a música quase lhe fere os ouvidos, mas aguenta. Porque, assim, consegue manter todos os pensamentos afastados da mente.

Escrever-te

As letras misturam-se e as frases que construo levam-me a ti. Finjo que é falta de inspiração e rasgo as folhas que escrevi, mas a cada recomeço encontro o teu sorriso e não sei como apagá-lo da mente. Apetece-me esquecer tudo, limpar as horas e voltar à página em branco para que, de uma forma menos inocente, eu consiga contornar tudo o que me fez chorar.
E a verdade é que as linhas que traçamos no chão nem sempre se mantêm firmes, rectas e intransponíveis. Os dias forçam-nos a escolher as palavras, a olhar o chão que tencionamos pisar antes de o fazer, a provar antes de comer. E é tudo tão simples que chega a tornar-se complexo: uma borboleta não é só uma borboleta, mas é a forma como olhamos que a transforma em muito mais do que isso. Tudo à nossa volta se ajusta ao nosso olhar e, quase sem saber, fazemos da vontade de viver uma desculpa para vergar o quotidiano aos passos que damos.
Mas, para já, quero que as palavras me obedeçam. Preciso que as minhas palavras deixem de ser tuas e voltem a submeter-se a mim. Quero que o escrever, sobretudo o escrever-me, não seja escrever-te.

À deriva

Sentimos tantas vezes que perdemos o pé, que estamos a nadar contra a corrente, à deriva. E à medida que nos esforçamos por manter o calor no corpo, esquecemo-nos de procurar o pulso. Tudo gira à nossa volta e, na necessidade de acompanhar o movimento, perdemos o ritmo que nos acelera o coração.
E de repente o esforço que fazemos para tentar respirar deixa-nos exaustos, de repente tudo o que nos parecia certo deixa de o ser e sobramos nós... verdadeiramente sós.

Os beijos roubados têm muito mais sabor...

...há quanto tempo não me roubas um beijo?

Inquietude

Irrequieta, muda de posição a cada segundo que passa. As mãos vazias, tão cheias de nada. Olha em frente e sente o tempo escorrer-lhe nos dedos como se os dias se atropelassem nas horas. Tudo fervilha, as luzes são intensas e brilhantes e o movimento perpétuo. A respiração entrecortada de quem não consegue controlar as batidas do coração, nervos, ansiedade, tudo o que se esconde nas reacções físicas. Sente a transpiração nas palmas das mãos e apressa-se a limpá-la nas calças de ganga, cruza as pernas e volta a bater o pé ritmadamente. Não sabe ao certo o que a incomoda, mas sabe que não pode ficar assim durante mais tempo.

Pára. Respira fundo e tenta acalmar-se por entre o desespero de não perceber a razão de tanta agitação e os olhares agitados que a atacam. Nunca foi assim, as pessoas não a assustavam. O que mudou?

Enough about me...

video

Momentos

Há momentos mágicos. Pequenos instantes que nos aceleram o coração e nos plantam um sorriso insistente nos lábios...
Fazemos tudo para os guardar, gravar na mente aquela gargalhada e aquelas palavras que nos fizeram felizes. Uma fotografia, um olhar, um toque ou um bilhete despreocupado. Tudo o que nos faz sonhar. Efémeros e esquivos, são esses momentos que constroem, aos poucos, cada um de nós.

Novelo

O fio fugiu-lhe da mão, entre os dedos ficaram as fibras soltas de um novelo colorido. Em cada cor, um sonho, em cada centímetro, uma esperança inocente. Os dias foram passando e nas mãos havia a segurança de um caminho planeado, na mente as expectativas ingénuas de quem desconhece a natureza do que vê e, nos olhos, a vontade de seguir em frente. Não percebe porque tem os dedos frios, as mãos abertas e vazias, o corpo cansado e os olhos cheios de água. Não percebe o que aconteceu porque não o tinha planeado, não entende como é que o fio se escapou por entre os dedos. Não aceita que o fio fugiu porque o novelo chegou ao fim...

Desassossego

Subitamente paras. Sustens a respiração e tentas ouvir o silêncio, nada. Já não sabes o que te trouxe até aqui, mas sentes um enorme alívio na calma que te rodeia.
E ainda assim, não sabes como rotular o facto de teres o coração em alvoroço. Tens latente na pele um constante mutismo de palavras hostis, que te ecoam na mente e roubam a quietude que se abateu sobre ti.
Sentes que estiveste a correr durante demasiado tempo e agora paras e não tens posição, simplesmente não te lembras como é ter a respiração singela de quem não se esforça por continuar em movimento. É como ter as pontas dos pés suspensas num abismo, um desconforto seguro, uma inércia espartilhada pela integridade que te obrigas a preservar... uma insegurança que te faz questionar o momento seguinte.

Um dia

Há um dia em que te apercebes que precisas de ir mais longe, saber que chegas lá.
Mas o mundo nega-te a viagem e tu continuas a lutar contra os obstáculos que vêm na tua direcção, não te mexes. Esperas. Respiras Fundo. Escondes as lágrimas na garganta e negas a inércia que te move.
A leve sucessão dos dias impressiona-te e esmaga-te contra uma realidade que não queres aceitar, mas há um dia em que tentas. Esqueces as frustrações e recusas tudo o que em tempos te desiludiu, tentas e acreditas que vais conseguir. Esticas a mão e ficas surpreendido com o alcance do teu braço.

Longe

Hoje esperei por uma palavra tua. Sentei-me na calçada e chorei no teu silêncio. As minhas palavras pareciam incompletas antes das tuas e tu deixaste-me a metade. Sorriste ao longe, esperaste um sorriso meu. Falaste até, uma daquelas frases serenas e inocentes que nunca têm significado. Hoje o teu toque estava frio e o meu corpo gelou. O som da tua voz arrepiou-me a pele e o teu perfume não me soube encontrar. Estavas tão longe.

Clack!

Um olhar intrigado, algum espanto e desenvoltura na pergunta:
- Porque é que fechaste a porta?

Um sorriso óbvio e saboroso:
- Porque vou abrir todas as janelas!
De olhos fechados sente o vento frio na cara. O sol abandona-se suavemente ao fim do dia e pousa no horizonte. Os dias são uma sucessão de desejos e vontades, guerras e batalhas que nem sempre podemos vencer. E, nos intervalos da rotina, há pormenores que enchem as horas de cor e o peito de ar puro.
Por vezes os sorrisos são mais do que feições: são frases ditas em silêncio, palavras diluídas em olhares cúmplices. Por vezes, os dias passam com a leveza dos segundos e a naturalidade do movimento das marés. E ela gosta de se sentar numa pedra e fechar os olhos, sentir o vento e respirar fundo. Gosta de saber que há um lugar em que pode descansar a mente e simplesmente apreciar o pôr-do-sol...

Desmoronamento

Um dia algo acontece. Não o prevíamos nem o queríamos, mas acontece. E tudo muda, para o bem e para o mal. Sem sabermos, encaixamos numa sequência que não foi projectada por nós e tudo parece estar fora de controlo. Desmoronam palavras, pedras, portas e paredes. Os alicerces, que um dia foram o nosso porto seguro, caíram inertes no chão.
E aí, nesse lugar vazio do desmoronamento, forçamos os pulmões e respiramos fundo... continuamos.


Também aqui.

Com a lua…

Era já noite de um dia qualquer. Era já noite de uma semana sem te ver.

A lua altiva e orgulhosa encheu-se de brilho e brio para me encantar. Deixou-me os olhos a brilhar, as mãos nervosas e os lábios trémulos. E sem me aperceber soube que estava apaixonada, pela sua forma suave, pela sua luz sumptuosa.

E agora diz-me, como podes tu ignorar a lua e quereres-me a mim. Como podes desconhecer o seu brilho que dá luz às noites: a todas as noites.

São pequenas infâmias as palavras que atiras em perguntas levianas sobre a lua. São amenas dores que me provocas, apertos no peito, agulhas na alma, quando dizes que não encontras a lua e que nem sequer a procuraste.

Revoltas-te, argumentas que não tens tempo, estás cansado. Mas será o cansaço maior do que o espaço que o teu pensamento guardou para mim?

E beijaste-me, precipitadamente, de forma descuidada. Distraído e preso a outras cordas, mais brilhantes do que os meus abraços. Apertaste-me e eu fugi. Corri para onde os teus dedos não me pudessem alcançar: nessa noite percebeste que tinhas de me dividir com a lua.

Não molhes o silêncio.

As lágrimas que te caem das pestanas incomodam aqdor que o meu silêncio provoca. Deixa-me ser este forte de pedra que não deixa entrar ameaças, que protege alguma coisa de pouca importância.
Não me importa ter os teus dedos apertados à volta dos meus pulsos, quero ser isto, deixa-me ser isto. E por favor não chores, não murmures lamentos entre soluços, não implores. Não quero olhar para ti. Quero ficar assim, aninhado neste forte, mesmo sabendo que aquilo que protejo é uma rocha e não uma pérola.
E por favor, não molhes o silêncio, este silêncio que me dá serenidade e conforto, este silêncio no qual tu nunca soubeste como existir. És barulhenta e as tuas lágrimas são trovões que se despenham em mim, são sirenes de insuportável volume que me ferem os ouvidos.
Por favor, se queres ficar em mim fica em silêncio.
Cruzas os dedos com força enquanto mordes o lábio. Sei que desejas que tudo corra bem e também sei que tens medo que tudo corra mal. E tu sabes que eu acredito em ti. Ontem, quando te disse que ia estar sempre aqui para ti, não te menti. Mas quero que acredites em ti mesma. Quero lavar-te dessa insegurança que te faz tremer as mãos e a voz. Porque tu sabes que vou absorver cada lágrima que fizeres deslizar no teu rosto e vou beber da tua dor como se fosse minha.
Agora dá-me a mão, o silêncio não chega para que percebas que estou aqui, que sou real. Nunca te deste bem com a ausência de voz, o vazio das palavras. Nunca gostaste que eu as guardasse só para mim. Sempre achaste que as palavras são como presentes, que não se guardam, oferecem-se. E tu sabes que eu guardo cada presente teu, escuto cada palavra desenhada pela tua voz, porque tenho medo do teu silêncio. Na tua boca o silêncio é tristeza, os momentos em que emudeces a voz são punhais cravados no meu coração. E as tuas feridas são minhas também, sangro os mesmos rasgões abertos pelas lâminas que escondes.
Anda cá, deixa-me sussurrar-te ao ouvido. "Vai correr tudo bem. Eu estou aqui."
A manhã acordou cinza. Escura e fria, com a expressão de quem acorda aborrecido e tem dificuldade em abrir os olhos. O sol estava preguiçoso, reticente em assumir a posição dominante a que nos habituou.
E mesmo assim o dia prosseguiu, altivo, sem esperar por ninguém, com a solidez de quem repete os mesmos passos mais vezes do que queria. As horas foram arrastadas, contrariadas num saltitar sereno e audaz. E numa orquestração coordenada, a semana foi desenrolando as suas notas sem parar.
Os sorrisos habituais, as palavras necessárias ao silêncio, todos os elementos foram assumindo o seu lugar sem perguntar porquê. E no fim de cada dança, com os acordes mais calmos, o sol pousa a cabeça no mar e o corpo no horizonte e adormece. Sem saber que a lua chega para lhe velar o sono.
Debruçada nas grades da varanda, cantarola uma música que a avó lhe ensinou. O vestido colorido esvoaça-lhe nos joelhos massacrados pelas quedas de criança. Mandam-na sair dali mas ela mantém-se imóvel, doce rebeldia de quem recebe mimos a toda a hora.
Sorri enquanto observa dois cães a perseguirem-se pela rua. O suave balanço das horas não a incomoda, o lento girar da terra não a distrai. O mundo dela é perfeito, pleno de sol, bolos, animais e canções. A felicidade que transborda do seu sorriso é quase tangível.
Na sua inocência imaculada não sabe que um dia vai olhar para trás e ver que o tempo passa quando estamos desatentos. Que a vida se desfaz em gargalhadas e abraços, em lágrimas e palavras. Que os dias são nossos com a certeza do seu fim.
O silêncio arranja forma de transmitir o que queremos esconder. Resgata tudo o que não sabemos como falar ou escrever, salva as palavras que insistimos em esquecer. E em serena aquietação esperamos que ninguém perceba o que enfeitamos em sorrisos para não nos desfazermos de nós.
E dos olhares fugidios fica tanto por dizer, segredos que em surdina não soubemos como guardar. O compasso do coração é a batida da alma, que expõe o que não conseguimos verbalizar. O novelo de pensamentos é o desenho de quem aprendeu a guardar as palavras e agora não sabe como usá-las.
Vamos preenchendo os dias numa cortina opaca, cor de pastel. Numa angústia omnipresente que nos ata os tornozelos e os pulsos a uma árvore seca e morta, vamos esperando que o vento nos solte, que o sol corroa as cordas e nos devolva a liberdade. Mas enquanto houver lábios a morder as palavras por medo, não haverá espaço para voar.
Hoje quero reescrever todas as palavras. Reaprender todas as letras e voltar a espalhá-las no chão da minha mente. Esquecer todas as frases e refazer todos os parágrafos, como se fosse a primeira vez.
Hoje quero misturar os significados e esconder os sinónimos. Escolher cinco palavras e virá-las do avesso, pegar em mais três e mudar-lhes os acentos. Quero brincar, usar o que escrevi e o que pensei...esquecer o que nunca quis escrever e deixá-lo escorrer-me pelos dedos até ao papel. Sem que eu me aperceba.
Porque às vezes não sou eu que mando nas palavras, são elas que me conduzem por labirintos inexplorados e me deixam esquecida no silêncio do que sinto. E elas vêm assim, em catadupa, cheias de significado e jogos maliciosos na sua conjugação. Eu deixo-me levar sem sussurrar um queixume que seja, é rodeada de palavras que sou feliz.
Mas hoje quero desconstruir tudo que elas me trazem, refazer todos os textos e esconder todas as frases que me mostram como sou. Porque nem sempre sei como falar de mim, porque nem sempre sei procurar as palavras certas.

Piano

Por um momento sentiu-se sufocada. Fugiu a passos nervosos para a rua, sentou-se na varanda, no precipício do arranha-céus. Perdida nos seus pensamentos, não sentia o frio a morder-lhe as faces. Algumas gotas começaram a cair e ela nem reparou, ouvia com atenção um som próximo e suave. Piano.
As teclas gemiam e rasgavam a noite, sustinham a correria da cidade por um instante. Tudo parecia silencioso, as estrelas bebiam sedentas daquela alma desfeita em notas musicais e ela permanecia imóvel, de olhos fechados e o coração escancarado. A melodia dançava no vento, preenchia o ar como um aroma agradável que não se quer esquecer.
Sentiu uma gota fria cair-lhe no joelho, mas não se inquietou. Muitas outras caíram sobre o fim do dia e ela não foi capaz de ser levantar, não enquanto aquele piano tocasse. As notas eram carícias, como doces palavras que se dizem em noites de luar e a noite chegava, embalada pelos acordes certeiros e sofridos.
Quem estaria a tocar? Não sabia, mas tinha a certeza de que permaneceria ali até o silêncio chegar. Imaginou serenamente as mãos de alguém a dançarem nas teclas neutras de um piano de cauda, o coração acelerado de quem tocava ao ver que o piano traduzia sentimentos...quase foi capaz de sentir a sua respiração ritmar a harmonia da música.
E o piano cessou, passados segundos, minutos, horas...talvez dias. E ela sentia a pele gelada e molhada, mas a alma quente e sossegada.
Mais um passo, um avanço. Levamos nos bolsos as juras de mais sorrisos, as promessas de abraços futuros. Guardamos nos olhos o brilho daqueles que nos fizeram felizes nestes três anos.
E as memórias abrigam os momentos marcantes,:tristes ou alegres, aflitivos ou descontraídos. Cada segundo foi parte de uma vida que partilhámos, uma vida que partilharemos para sempre por muito afastadas que estejam as nossas mãos.
E agora...carregamos nos ombros as certezas do que aprendemos, as dúvidas do que virá. E com a voz embargada e a garganta apertada mostramos com orgulho os sentimentos, as pessoas que nos mudaram, que nos fizeram crescer. O tempo escorre-nos pelos dedos a cada pôr-do-sol desta cidade, a cada meia-noite cantada em serenata sabemos não poder voltar atrás. Angustia-se o coração e os pulmões encolhem-se no peito. Capas negras de saudade, dizem. S-a-u-d-a-d-e. Sim, capas que nos aquecem os ombros e disfarçam as lágrimas que caem. Capas que são portas para outras vidas, outras emoções. Capas que nos protegem e resguardam nas frias noites em que nos faltam partes da alma.
Estendo a minha capa a vocês, à partilha de sorrisos, às mãos dadas no meio do choro, aos abraços apertados e às palavras especiais...a Lisboa, uma cidade que soube amar por vocês, com vocês. Tudo isto aprendi convosco...tudo isto é muito mais do que eu posso dizer. Muito mais do que poderei agradecer, por isso deixo que os meus olhos o façam por mim.


Vou sentir falta de tudo: das gargalhadas nos corredores, das conversas longas nas escadas, do jogo da forca, das parvoíces, das tardes nos bancos de madeira, das tardes na Gulbenkian, dos passeios, das brincadeiras, dos risos de todos e de cada um. Mas acima de tudo dos vossos sorrisos à minha volta....


E todos sabemos que as fotografias nunca apanham TODA a gente, não quer dizer que não estejam no nosso coração.

Mão na mão

É por existirem sonhos que sorrimos. É por termos vontade de sorrir que continuamos. E quando o mundo se estilhaça aos nossos pés é por termos quem acredite em nós que não desistimos.
Todos temos horas de felicidade, alegria, satisfação e euforia. Mas há fins de dia que trazem o cansaço, a descrença e a desilusão. É nestes altos e baixos que construímos aquilo que somos, é nos caminhos sinuosos que aprendemos a andar.
Nos primeiros passos temos ajuda, apertamos uma mão segura que caminha ao nosso lado, quando temos confiança na estrada soltamos os dedos e saboreamos o vento...mas quando o sol se põe sentimos falta de uma mão quente que encaixe na nossa e nos acalma as dúvidas.

Ontem sonhaste com ele e não comigo.

Foi na mão dele que repousaste os teus sonhos e frustrações. Foi nos braços dele que adormeceste serena, sem esperar o amanhecer. Sonhaste com abraços e discussões, uma vida inventada pelo teu inconsciente inseguro. Mas foi nos olhos dele que te perdeste mais uma vez...não nos meus.
Ontem esperei por ti naquele lugar onde se espera pelos sonhos, adiei o sono na pressa de te encontrar. Tu não vieste. E o meu sonhar vagueou solitário na escuridão do teu silêncio. Não soube encontrar a tua mão, o teu sorriso...Fugiste-me.
Roubaste o meu tempo e correste para longe, escapaste da minha visão. E ontem não sonhaste comigo. Eu deixei a minha mente esquecida em ti, perdida pela noite. Fiquei sozinho - à tua espera. Mas ontem...ontem não foste minha. Sonhaste com ele, não comigo.
Uma gota e depois outra. As lágrimas que esconde por baixo da pele começam a doer. Está sentada à beira mar, olha para o horizonte e tudo se mistura. A chuva já não lhe sabe lavar a alma, a serena carícia da água fria já não chega para a acalmar. Há algo que falta, uma peça que já não sabe como se encaixar.
Cruza os braços por cima dos joelhos e fecha os olhos, sente o frio a corroer-lhe os ossos mas não é capaz de se levantar. Por entre os passos de alguém que a acompanhou perdeu o ritmo do seu andar, e agora já nem sabe por onde começar. Num suspiro obriga o corpo a erguer-se, sustém o peso nos pés com a leveza de quem nunca parou para pensar.
A chuva cai intensa nos seus ombros e ao caminhar sente o seu coração desconcertado. Espalhado pelo chão em peças pequenas que têm que reaprender a estar juntas, como um puzzle. Desfeito, esquecido nalgum tapete que ninguém pisa.
A visão turva-se e ela já não sabe se é a chuva ou se são fracções do seu próprio sal. Mas ao andar a alma não lhe pesa nos tornozelos, as mãos balançam como se não carregassem a vida de mais alguém. Ali, debaixo da chuva, as gotas são refúgio, o mar é porto de abrigo.

Sol e Lua

Agora que o sol nasce pede à lua para esquecer o que viu. Conta-lhe que um coração que abraça os sorrisos efémeros sofre mais no fim, explica-lhe que os dedos entrelaçados não duram para sempre e que há muitas razões para esquecer.
Chama a lua e diz-lhe tudo o que nunca conseguiste falar comigo. Despeja as mágoas, as incertezas...mostra-lhe as tuas dores, as fraquezas. Espera um sorriso e um banho de calma, sonhos de fúria que no final te serenam a alma.
Pede ao sol uns minutos de descanso, empurra o dia para longe de ti e limpa as feridas que tens por dentro com o sal que chorares.
Não deixes que o peso dos dias se abata sobre ti...conserva a calmaria do anoitecer e a lucidez do amanhecer. Porque enquanto a lua te puder perdoar o sol nunca te julgará.

Não me apertes os pulsos

O teu silêncio aperta-me os pulsos. Não sei ser, sozinha, aquilo que me ensinaste a ser contigo. E esta espera põe-me o coração em desassossego. Sem querer, espero por uma palavra tua, algo que me diga que não esqueceste os meus lábios. Não sei como te expulsar do pensamento…não quero esquecer-te, mas não quero lembrar-me de ti. Quero saber arrumar-te, esconder-te no fundo de uma caixa de cartão poeirenta. Encostar-te a um canto escuro e esperar que um dia eu tropece na caixa cheia de coisas indefiníveis e veja o teu sorriso. Talvez nesse dia possa ser eu a dizer-te que não esqueci o teu toque. Por agora vou empurrar-te para o lugar mais recôndito da minha mente. Onde seja difícil encontrar-te nos minutos vazios do dia-a-dia. Porque não gosto que me apertem os pulsos.

Silêncio

A pausa azul celeste na velocidade dos dias. Um recanto do paraíso que nem sempre nos lembramos de procurar. Silêncio, aquele bailado leve e ritmado dos movimentos subtis. Um esperar inquieto por algo que nem sempre vem.
Silêncio, um lugar. Um sorriso, uma mão aconchegada entre outros dedos...um olhar. A certeza de uma calma quase palpável, a esperança de um novo começo.
Silêncio, um choro calado, um coração em sossegado palpitar, uma mão estendida e o calor de um abraço. Silêncio, o cansaço das palavras, o irreversível desgaste das frases incompletas...

Voam

Os olhos cravados nas mãos vazias dele:
- Já alguma vez seguraste um pássaro nas mãos?
Uma expressão de surpresa, um movimento brusco e ele respondeu:
- Ãhn? Acho que não..não..porquê?
- Nada...não a queres perder pois não?
O olhar dele mergulhou em lembranças que não partilhava. A voz calmamente aflita:
- É a última coisa que quero.
Ela engole em seco. Nunca pensou que pudesse custar tanto ouvir aquilo.
- Então...tens que a segurar como segurarias um passarinho. Não podes apertar demais porque vais magoá-lo e ele vai querer fugir, mas também não podes ter as mãos totalmente abertas porque ele vai querer voar para longe. Não porque não gosta de ti, mas porque é o que os passarinhos fazem. Eles voam.
Ele observa-a concentrado e com um visível esforço para absorver cada palavra que tinha acabado de ouvir.
- Então estás a dizer que ela é o meu pássaro?
Um sorriso triste:
- Sim, tens que lhe mostrar que gostas dela, mas não podes exigir todo o tempo do mundo só para ti. Tens que lhe dar espaço para que ela perceba que precisa de ti.
Ele suspirou profundamente.
- Vocês são complicadas...
Ela sorriu. Pensou que às vezes a vida é mais simples do que parece, nós é que insistimos em complicar. Que a vida é curta e que nós é que decidimos se a queremos simples ou complexa.

Inacabado

Inacabado sim, quando a tua mão se desvia subtilmente da minha e os teus olhos já não sabem quem sou. Incompleto porque me falta o calor da tua pele.
Sou assim desde que fugiste do meu olhar, um sonho desfeito que alguém esqueceu enquanto acordava. Culpo-te. Foste tu que me tornaste nisto, este misto de pedaços de alma que caem a teus pés. Esta miscelânea de vidros estilhaçados na estrada que fizemos de mãos unidas.
Depois de ter sido o fogo do tempo nas horas em que te amei obrigaste-me a ser o gelo solitário que agora te chora. Não sei se te ocupa a mente este meu lamento silencioso, mas sei que te pertuba a solidão em que te envolveste, nunca gostaste de estar sozinha. E agora que soubeste como vencer o medo e me abandonaste não sei como te pensar, deixei de aprender a viver.
Foste tu. Ensinaste-me a ser arco-íris nas nuvens e agora, sem o teu sorriso, vejo-me numa fotografia corroída pela memória a quem roubaste a cor. Sou assim, o guarda-chuva partido que se esforça por te proteger do frio no meio de uma tempestade.
Inacabado, porque me faltas tu, porque a culpa que despejo em ti não me limpa a dor.

Ele continua

A chuva cálida que insiste em cair, a noite glacial que porfia em entristecer as ruas. E as estrelas escondem-se diminutas atrás de nuvens escuras. Ele segue em passos firmes sem direcção, alheio, absorto, perdido.
As horas já não lhe pertencem, tudo o que colheu do sol desfez-se em risos cansados e os ombros descaíram com o peso do tempo. Há dias que lhe parecem mais fáceis, passam devagarinho, silenciosos, e terminam a chorar em surdina numa qualquer calçada. Hoje tudo passou assim, uma leve brisa fria que revolveu as folhas secas no chão. Um sopro fraco de calor que lhe amotinou os pensamentos na mente. E, sem querer parar, caminha disperso em tudo o que o trouxe até ali, àquele momento em que a mente de tão vazia lhe dói e o coração quase pára de bater.
A idade diz-lhe que os seus passos já não são seguros, cada toque do sapato na calçada brilhante de água é um risco. Mas a idade também lhe provou que é dos riscos que nasce a maior gratificação e por isso continua. Não duvida do seu caminho embora não saiba para onde vai, não hesita nos movimentos, não tem medo de avançar. Quer um mundo novo, não quer voltar ao sofá encardido que deixou abandonado numa sala mal iluminada. Uma sala que se tornou o cárcere das tardes de solidão. E ele continua, porque não sabe que os seus passos o vão levar a casa.

A manhã

A manhã nem sempre sabe como começar. Porque há dias em que o sol se esconde por entre nuvens e árvores para não perceber a tristeza do mundo.E as horas levam-nos por entre as palavras que dizemos e aquelas que nos obrigam a ouvir. O tempo passa sem querer, sem saber onde parar. Os dias transformam-se numa sala de espera quente e iluminada, começam do avesso do fim porque não sabem como começar. E neste lugar, aconchegado por entre os minutos da correria quotidiana, podemos esticar as pernas e encostar a cabeça…e esperar. Simplesmente esperar.

Os meses correm, esquecidos nos dias iguais, como as águas límpidas das cascatas. E aquela espera serena prende-nos a qualquer momento que não devia ter acabado. Esperamos sempre…por alguém, por alguma coisa…e nessa espera somos capazes de perceber que na verdade esperamos por nós, desde que nos perdemos nas memórias até que alguma coisa nos traga de volta aos minutos que apertamos nos dedos. E nas manhãs em que o dia adia tímido o seu início afastamos o sono do corpo na esperança de haver sorrisos à nossa espera. Esperamos sempre…nem que seja para ver o dia nascer.

Saudade

Uma gota de sal no rio, uma mão trémula que agarra um lenço branco e encharcado. O calor de ombros encostados permanece num momento inevitavelmente efémero. A certeza daquela angústia póstuma no peito, a vontade de nunca parar e o querer guardar cada minuto. E por cada lágrima que o Tejo acolhe, por cada salto a pisar a calçada gasta há um sorriso e um abraço, há silêncios e risos ensurdecedores.
Um caminho que se faz lado a lado, ombro a ombro, sem esperar pelas oportunidades, a agarrar cada brisa e a respirar cada palavra como se fossem nossas. Porque agora que a noite acaba a beijar o dia, os olhos mostram o vazio que fica quando a alma se prende a um lugar. Depois dos dias acesos de alegria ficam as horas arrastadas e frias, o tempo fugiu e agora demora-se na saudade de outras músicas. E encostados à sua própria força de viver, assustados pelo frio que um coração oco promete, rezam em surdina não deixar morrer o sentimento que os une. Cantam baixinho para acalmar o corpo dormente e procuram um canto escuro na sua mente para esconderem as feridas de ver partir os anos.
Sem saberem têm a certeza de ouvir partir sentimentos, de ouvir estalar gargalhadas suspensas num plano longínquo e sentem pena. Mais que pena, dor. O levantar voo do rouxinol pequeno e amedrontado que leva todas as lamúrias de quem esquece o que vive. Porque podemos fugir das lembranças que nos fazem chorar. Mas o coração, esse, guarda a saudade.

Respirar a noite

Às vezes é preciso ir ver as estrelas, respirar a noite. Sentir que nem tudo é aquilo que não queremos...olhar em frente e ter a certeza de que sabemos dirigir os passos que dermos no escuro.

As mãos geladas levam o medo, as pernas trémulas a angústia de não saber...E o vazio espraia-se na pele de quem caminha sem vontade, como o ar pesado nas noites em que nos deitamos com o nó na garganta de quem não disse tudo o que tinha a dizer.
A certeza de que o amanhã será só mais um pôr-do-sol, só mais um arco-íris passageiro, uma corda de água que deixa a vida cinzenta. Porque às vezes é assim, temos que dar a pele à chuva e sentir o frio lavar-nos de tudo o que nos faz chorar. E ficar de olhar fixo num ponto longínquo, esperar pelas palavras que nem sempre vêm. Permanecer naquele esquecimento precoce e sonhar com tudo o que desejamos em segredo.
Às vezes é preciso inspirar profundamente, aprender a querer um novo dia. É preciso saber respirar a noite para podermos acordar no dia seguinte e sermos capazes de sorrir.

Sentada no balouço do sol fita os dedos envoltos na corda que segura.
Deixa a mente divagar, sente-se sorrir com certas lembranças e entristece-se com outras. A confusão não é total e sem se aperceber vai desfazendo os nós do seu pensamento com a paciência de quem doba um novelo de lã.
Hoje é um daqueles dias em que o peso ao fundo das costas é só o prenúncio de uma noite mal dormida. Hoje, ela sente aquela estranheza subtil situada entre o cansaço e o sonho. Sabe que vai acabar por passar...na verdade há poucas coisas que não são efémeras.
E enquanto segue o balanço do seu corpo, sente o ritmo do seu coração em competição com a sua mente. Estica as pernas e força as pontas do pés a tocar o chão. Lentamente e, ao desenhar dois sulcos paralelos no chão, sente-se parar. Fecha os olhos e deixa cair a cabeça para trás, o cabelo desliza-lhe dos ombros para as costas. Permanece assim até sentir coragem para voltar a abrir os olhos.
Esvazia a mente e recomeça o seu balanço suave e, com uma respiração mais profunda, diz com voz serena ao sol que a acalenta:

- Às vezes é preciso parar para recomeçar.
E quando as lágrimas insistirem em cair procura um lugar onde possas encostar a cabeça e respirar. Não te esqueças que haverá sempre um amanhã e que o sal desgasta a pele porque expulsa a dor.

Lembra-te de conservar a certeza de que alguém sabe de ti o que tens medo de mostrar, não gastes a energia que te resta a torturar as pestanas de cada vez que as barreiras que foste construindo para protecção desmoronarem.
Não deixes que o frio se instale nos ossos enquanto procuras uma posição confortável, não olhes para o vazio como se fosses tu.
E quando não souberes o que fazer, aperta a minha mão e fecha os olhos. Serei a tua força quando a fraqueza te atacar. Mesmo nas noites escuras e sós, quando sentires que nada mais vale a pena pensa que existe alguém com a mesma saudade.
Porque no fundo todos nós queremos sentir que alguém virá para nos dar a mão...esperamos sempre por alguém que nos possa abraçar e beber das nossas lágrimas para que sequem. Mas há esperas vãs e aprendemos a lamber as feridas e a continuar a sorrir.

Um suspiro. O ar apertado contra os ossos. Aquele sentimento de perda que tem quem não encontra o que quer. Uma confusão de pensamentos, uma amálgama de sentimentos. A combinação que desperta a inércia e que impede decisões sensatas.
O quarto está escuro, atravessado por um ténue raio de luar. Há um corpo cansado estendido na cama desfeita. O coração bate-lhe no peito como um comboio, escurecido pelo pó, que se arrasta numa marcha lenta e compassada. Os pulmões funcionam em pleno mas esforçam-se por oxigenar os pés gelados e brancos. E esse alguém estendido no colchão sabe que o mal-estar físico é consequência da dor psicológica que lhe destrói implacavelmente os pensamentos. Esse alguém alimentou-se das palavras que ouviu, que se entranharam na pele e foram enfraquecendo a alma de quem as acolheu como o bicho da madeira destrói os móveis, por dentro.

Cais da Ternura

No Cais da Ternura a brisa é constante, há quem se sente e não se importe com o frio a morder-lhe os pés. Os sorrisos surgem, brilham e acabam por esmorecer. Os barcos da saudade vão e vêm, nunca ficam muito tempo porque não querem agarrar-se aos ossos de quem permanece esquecido pela emoção. E neste cais há tempo para carícias em cabelos caídos nos ombros fustigados pelo sol, há tempo para toques seguros nas costas, entrelaçar de dedos e acenos de adeus. Há espaço para abraços, lágrimas nos limites da alma e olhares trocados em silêncio. A tristeza apodera-se de quem vê partir e de quem parte, a ternura vai, vem, fica. É constante como o bater ritmado de um coração saudável. É um ciclo vivaz de cores, sabores, sons e angústias. Sentimentos que nascem sem que sejam cultivados, como ervas daninhas que nos corroem o pensamento. A ternura que todos temos debaixo da pele, feita para envolver aqueles que mais perto chegam do nosso coração, alimenta-se do nosso calor e às vezes faz-nos chorar...

Simples

De pés cruzados e joelhos afastados, sentada no chão poeirento, brinca com um galho seco de uma videira. Sente o sol quente nos braços frágeis e rechonchudos, ouve com atenção todos os ruídos do campo num fim de tarde estival. Delicia-se com o vento macio que lhe beija a pele descoberta como uma carícia. É criança, sabe que o mundo todo lhe cabe numa mão e que todos os animais sabem cantar. E de repente levanta-se, sacode o pó dos calções curtos de algodão e corre em direcção a uma pequena nascente emoldurada de verde vivo. A água é límpida, o elixir da vida, o líquido que tem o segredo da alegria eterna. E para esta criança o sabor daquela água é melhor que um chupa-chupa de morango ou um gelado de caramelo. Sente-se mais feliz ao esticar os seus pequeninos dedos à água fresca e saboreá-la nos lábios quentes e na língua sedenta pelo calor. Volta a sentar-se no chão desta vez para observar de perto um formigueiro em fase de construção: vê com atenção e repara que as formigas tiram a terra em bolinhas e deixam-na à volta da entrada, pensa que é isso que a mãe faz quando está a limpar a casa, põe o que não quer cá fora. É tudo tão simples.

As palavras são como os frutos nas árvores.

Por enquanto vou mordiscando as minhas palavras como quem trinca um fruto verde num acto de rebeldia. Ainda não tenho a paciência necessária para esperar que a fruta no pomar da minha imaginação fique doce e toda a gente a possa saborear.

Sou impaciente, mas é esse sabor agridoce do impulso que me faz ter forças para sorrir despreocupada. É o sentir o sumo fresco nos meus lábios que mata a sede de viver. Sei que um dia vou deixar de gostar da fruta rija e ainda verde, sei que vou passar a fazer o que for preciso para colher os frutos apenas quando estiverem maduros. Mas não me aflige porque quando isto acontecer vou lembrar-me do travo agreste da fruta verde e só isso vai permitir que volte a procurar a força que me faz agora puxar os frutos da árvore antes do tempo, só isso vai permitir-me seguir caminho sem perder quem sou.

As Cores

Adoro todas as cores. Não prefiro amarelo, azul ou verde. Gosto de as ver, de as sentir vibrantes em tudo o que me rodeia. A energia que transbordam inunda os meus dias e vou flutuando neste rio por entre sorrisos e lágrimas. E a natureza tem tantas cores...uma folha de videira não é só verde, é verde de força, de coragem para vingar, de persistência para proteger as uvas que brotam da planta. As cores nas asas das andorinhas não são tão simples como julgamos ser, o preto não é um preto baço e sem vida, é um preto azulado brilhante e resistente ao vento à chuva e ao sol. O amarelo do sol é feito de muitas outras cores, está cheio de vida, de movimento, de calor...aquece-nos os ombros e bronzeia-nos a pele...espraia-se em novas cores. Como o azul do céu se transforma com as nuvens e o sol, não é o mesmo azul de cada vez que olhamos para ele. As nuvens não são brancas. Não são só brancas, são cinzentas, azuis, são feitas de cores claras que se dissolvem na água suspensa pela atmosfera e criam a tonalidade clara a que estamos habituados. O vermelho guloso dos morangos, transborda o cheiro forte da doçura que lhe é característica, mistura-se com o tom escuro das grainhas que cobrem o fruto e faz crescer água na boca.
As cores são todas especiais e são ricas, plenas de vitalidade para quem as olha com atenção. A água absorve as cores que a tocam, a ausência de luz fá-las adormecer e por momentos ficarem afastadas do nosso olhar...mas nunca longe do nosso imaginário. Eu gosto tanto das cores...de todas elas, não tenho uma cor favorita. De uma maneira ou de outra todas me fazem sorrir.
- Sabes a chuva no verão.
- O quê?
- Sim, a chuva quente que te salva a pele das chamas do sol, que te deixa fresca e te põe a sorrir sem razão aparente. Tu és assim, fazes-me sorrir sem razão aparente. E eu sei bem que tenho todas as razões para sorrir, basta ter-te perto de mim.

Coração vs Mente

Está sentado num banco de jardim, a mente divaga, tenta encaixar as peças do puzzle. Tenta voltar a pôr tudo no lugar, enquanto tenta encontrar-se a si próprio. E às vezes não lhe parece tão fácil quando há tantas vozes que lhe dizem o que fazer, o que ser. De cada vez que ele tenta dar um passo a incerteza limita-lhe os movimentos. Sente-se longe, tão longe de tudo e de todos…adormecido num canto da sua vida sem querer acordar. A vida passa sem lhe tocar, os sorrisos, os gritos à sua volta não lhe pertencem. Todos os momentos que toca tornam-se estáticos, param no tempo.
Não tem expressão. Os fragmentos de si estão espalhados nos dias, nas horas que passa sozinho numa introspecção lancinante que lhe esfaqueia o coração pela inércia das palavras. Não diz o que verdadeiramente sente…mas a maioria das pessoas não o faz.
Encosta-se ao banco e não se sente confortável, tem a sensação de que mesmo se estivesse estendido na cama não seria capaz de descansar. O seu corpo é-lhe estranho e a sua alma não lhe responde. E ele vai passeando pelos dias até que o seu coração vença a luta que decidiu travar com a sua mente.




....Acho que é desta que volto aos posts com textos... =) fase pós-Segredos Aos Pedaços em livro!

Obrigada!


Porque há momentos que nos deixam sem palavras...



Muito Obrigada a todos!

A reportagem: aqui


Apresentação do Livro em Trancoso

Apresentação do Livro "Segredos aos Pedaços" de Tatiana Albino

02 de Junho - 15h30 - Hotel de Turismo de Trancoso


Para mais conhecimento, clika aqui.

Segredos aos Pedaços já à venda!

Antes de mais as mais sentidas desculpas a todos que me perguntaram nos comments onde podiam comprar o livro...é que eu também ainda não sabia de nada...


Bem mas agora posso dar-vos mais alguma informação!!!




Poderão encontrar o livro em qualquer uma destas livrarias:

INFO

Se tiverem algum problema avisem para eu poder contactar a editora e ela falar com a respectiva livraria....

E vá lá eu sei que as semanas académicas dão um valente desfalque nas contas da juventude...ms pode ser que sobrem uns 7, 50 euros para o gosto da leitura =P


Lágrimas...

Porque travas as lágrimas antes delas caírem? Deixa-as deslizar na tua pele e tombarem nas minhas mãos.
Encostas a tua cabeça no meu ombro e a água quente escorre pelo teu narizinho de princesa até pingar nas minhas calças, levantas-te e rapidamente pedes desculpa.
- Não peças desculpa, tomara eu ficar com as calças ensopadas de cada vez que precisas chorar!
Causei em ti um sorriso leve. Já tinhas os olhos vermelhos de tanto sal fazeres brotar de lá. Tremias. Partia-me o coração ver-te a soluçar, sentia a dor em cada uma das tuas lágrimas e a revolta no olhar. Os teus lábios inchados e quentes que mordias nervosamente e os teus dedos que seguravam instintivamente um lenço de papel húmido e salgado. Custava-me tanto ver-te assim.
Suspiras cansada e aconchego-te um pouco mais nos meus braços. Sim, eu sei que precisas de um abraço. Seguras-te ao meu pescoço e sem caíres do sofá consegues aninhar-te no meu colo. Acaricio o teu cabelo e os teus soluços de choro vão acalmando até que adormeces. Exausta de tanto sofrimento.

Thinking Blogger Award




É verdade, o meu blog recebeu o Thinking Blogger Award do blog Avesso dos ponteiros e resta-me agradecer! ^.^

E é a minha vez de premiar 5 blogs que me fazem pensar...

Enjoy Neverland

A Nona Onda


Tudo & Nada

Como se Leva uma Estrela para o Céu?

Letras Soltas


A todos os outros que não constam na lista quero que saibam que só não estão na lista porque ela era demasiado curta...todos os blogs que visito e que leio pelo menos um post inteiro fazem-me pensar de alguma forma. =)


Agora os escolhidos têm que colocar a imagem na barra no lado direito do blog e fazerem uma lista também! (:

Uma noite académica...

O sol está a nascer, a noite está a chegar ao fim. Ficam risos, músicas, palavras, momentos, serenatas…
Tu és o sol que há p’ra mim, tu és o amor que eu conheci…
Rostos cansados mas felizes, vozes gastas mas afinadas… as mãos unidas. Há magia no ar!
Rosa vermelha do meu jardim, que vale viver a vida sem ti…
Horas passadas com a certeza de que o tempo não volta atrás e que as memórias são o porto de abrigo da felicidade.
E não esqueças nem um segundo, eu tenho o amor maior do mundo. Coisas tão lindas para te dar, sempre a cantar!
O tempo passa, o sol já brilha alto no céu e relembra-nos de que tudo chega ao fim.
Deixa-me os teus olhos agora que partes, o calor da tua mão. Deixa-me ser só uma saudade no teu coração…
Momentos mágicos que carregamos nos pés cansados até casa.
E quando olhares as águas do rio, lembra-te de mim, és a andorinha de uma primavera que chegou ao fim…
Fica a certeza de que momentos assim não se repetem…e não se esquecem.

Apresentação do livro










A todos os que estiveram lá, a todos os que quiseram mesmo ir e não puderam e àqueles que chegaram no fim...mas que chegaram.



















MUITO OBRIGADO!









Sem vocês nada disto seria possível.

Lançamento do Livro

No próximo dia 30 de Março, pelas 21h30 no bar Onda Jazz vai ser a apresentação do livro "Segredos aos Pedaços" da minha autoria.
Não Faltem!!
Sinopse:
A alma espelha-se naquilo que vivemos. E o que vivemos expressa-se nas criações que alcançamos. A cada momento da vida corresponde uma disposição específica e é essa disposição específica que caracteriza cada pedaço do nosso espírito. Nestes “segredos” a autora abre-se ao Mundo e fá-lo através de uma capacidade criteriosa da escolha das palavras. Cada uma delas tem um lugar, tem um significado unívoco, uma destreza emocional e uma clareza emocionante. O resto é uma deambulação, uma viagem, por vezes curta, por vezes longa, por vezes exterior mas sempre dizendo a cada um dos leitores que ela, a autora, conhece um pouco dos segredos de cada um, que através dessas viagens o Mundo foi tornando-se cada vez menos individual, cada vez mais comum.
Mapa aqui: www.multimap.com
Há dias em que não sei quem sou, dias em que não reconheço quem me olha com sereno espanto no espelho. Mas nesses dias também sei que quem-não-sei-dizer-que-existe pode ser quem eu quiser. E eu posso permanecer esquecida numa almofada de sofá sem que a vida me incomode.
A capacidade de sonhar é infinita, bem o sei. Mas e quando a mente está cansada de montar e desmontar acasos para nós e o coração se estreita mais um pouco de cada vez que a alma é fraca demais para realizar os sonhos? Mesmo quando não sei quem sou sinto quebrar-se qualquer coisa cá dentro quando a vida me faz tropeçar e cair, mesmo quando não sou eu que sonho sinto a alma cobrir-se de negro à certeza da impossibilidade dos acasos. E quando há dor na incapacidade de me reconhecer a vida sussurra-me ao ouvido que me perdi. Eu respondo calmamente que não posso estar perdida porque nunca senti o contrário.
Sei porque é que não me reconheço.
De cada vez que aquilo que construo cai ao chão e se estilhaça em mil pedaços perco um pouco de mim, desaparece um pedacinho de quem sou. Quando passo horas a tentar reconstruir tudo outra vez, quando fico com os dedos dormentes e gelados por estar a colar todas as peças e no fim elas voltam a desmoronar-se aos meus pés. Quando sinto que já não há nada a fazer. Sei que não me reconheço porque há um bocadinho de mim que fica esquecido no meio das peças quebradas.
Mas porque é que fizeste tanta questão em ficar espelhado na janela da minha alma? Eu até te podia ter disponibilizado um espelho bonito, com os berloques do destino à volta, em que a tua figura ficasse nítida e segura.
Mas não...Como o mistério cataliza as mentes humanas, insististe em deixar-me apenas com o reflexo esfumado e frágil de alguém que pretensiosamente assinou o meu coração com tinta permanente. É mesmo teu, sabias? Quando não te queria tão perto de mim, tão definido, estavas lá, vivo e ágil a forçar as minhas reacções ambíguas. Agora que quero ter a tua imagem aqui, que quero poder olhar para ti e conhecer-me, agora que começo a sentir a tua falta de forma estranhamente cortante, deixaste-me um mero reflexo num vidro escuro com gotas de chuva...E eu quase não consigo olhar para ti, tenho os olhos cansados e a percepção começa a falhar...A minha perspicácia já não é o que era, sabias? Aumentei assustadoramente o meu tempo de reacção e começo a perder a noção de como isso aconteceu. No entanto a tua imagem, o teu mero, pálido e esfumado reflexo fita o meu pensar e mais uma vez não consigo falar. Tinhas esse dom irritante e desarmante de me deixar sem palavras, se calhar foi por isso que ficaste tanto em mim...e dizias tu que eu falava demais.

Agora podes largar a minha janela? É que o reflexo dissimulado que me deixaste não me está a deixar apreciar a chuva e já te disse que não consigo olhar para esse tu que já não está...Adeus.

Fim do dia

As sombras dançam à minha frente, brincam atrevidas com a pouca luz no quarto. E o pensamento voa, navega sem asas num espaço interminável a que tu já deixaste de pertencer. As palavras misturam-se e entrelaçam-se à procura dum significado que não existe. A música embala a respiração profunda duma alma sem retorno.
O fim do dia pesa como uma manhã de segunda-feira, a vida passa num queixume ligeiro como um choro de uma criança mimada. Os gestos não acompanham a mente, o corpo estende-se numa levitação morna, inconsciente.
E há aquela sensação estranha na ponta dos dedos...aquela que faz tremer os lábios e pulsar o sangue nas veias numa inquietação tranquila, um sentimento que não se explica, que nem sequer tem nome. Porque há tantos dias assim, em que precisamos de nos sentir deitados numa nuvem para podermos descansar.Dias em que até o movimento dos pulmões nos dói de tão esquartejado termos o coração.
Gostar de ti foi como rebolar por uma encosta de silvas, houve tanta coisa que me fez sangrar. Mas como as silvas têm as amoras tão doces, tão apetecíveis...Eu não me importava de continuar a picar-me para colher esse teu sorriso que reflecte o luar e provar do doce brilho dos teus olhos.

Sabes, quando era mais novo corria pelo campo sem me preocupar com os arranhões que surgiam inesperadamente nas minhas pernas ao final do dia...Agora também não vou desistir das amoras só porque as silvas me ferem a pele com gosto. Isso seria como esquecer a beleza de uma rosa só por que ela tem espinhos.

Mas estou cansado de curar os ferimentos ao fim de cada dia e voltar ao mesmo no dia seguinte. Se ao menos eu não gostasse tanto de amoras...

As Palavras

Às vezes as palavras ficam perdidas no fundo de um olhar, penduradas num sorriso ou outro. E quando damos por elas estão a descansar nalguma escada solarenga da nossa alma. Deixam-se ficar a ver o pôr-do-sol e a pedir-lhe baixinho para se demorar mais desta vez. E há manhãs em que saltitam no sorriso do sol, irrequietas e felizes, em que salpicam os dias de magia. Mas também há dias em que a noite é o único consolo e as palavras se escondem atrás de portas trancadas pelo tempo, se reduzem a feixes de luz esquecidos no amanhecer, a reflexos do céu nas águas paradas.
São horas em que as palavras se entristecem e pintam as frases a negro, escondem segredos. Falam baixinho, sussurram até, têm medo de fazer sangrar as feridas e rasgar de novo a pele. Tão fortes e tão frágeis.
Esquecem-nas tantas vezes nos parapeitos das janelas, nas ombreiras das portas cerradas de madeira roída e antiga. E elas permanecem como se tivessem nascido ali, nalgum canto que o sol esqueceu, no abrigo da chuva. Usamo-las com tanto desprezo que o gelo não é capaz de as abraçar e as gotas de chuva quente não chegam para as consolar. É por isso que às vezes, mas só às vezes, fogem de nós…

Meu anjo caído.

Sabe tão bem ficar a olhar para ela, sentada no sofá ao meu lado. Os lábios descansados pousados um no outro, tão leves, o seu olhar preso à televisão e as suas mãos frias abandonadas ao acaso no corpo. É tão linda que nem consigo expressar o que sinto por palavras e às vezes tenho tanta vontade de gritar que amo tudo o que nos une…
Gosto tanto de apertar os teus ombros nos meus braços, sinto que te posso proteger…sei que não passa de ilusão, mas quero acreditar que nunca ninguém te vai magoar porque eu não deixo, que as tuas mãos nunca mais vão voltar a estar frias porque terás sempre o meu calor para te aquecer. Sei que não posso ser esse herói que tanto quero para ti e tu sentes que o meu coração é nobre, o teu sorriso acalenta a força que o meu amor por ti me dá…Adoro quando sorris assim para mim, espontaneamente, sem razão, só porque eu estou ali ao pé de ti. Se pudesse congelava esses momentos e guardava-os para quando não posso olhar para esses teus olhos negros tão profundos. E gosto tanto quando os teus olhos me dizem que queres tomar conta de mim, que queres ser para sempre minha, o meu anjo. A tua pele inebria-me os sentidos, é tão suave. Às vezes tenho medo que não sejas real, és tão perfeita,mas tão triste. E custa-me olhar para os teus olhos e não poder destrinçar o que os faz tão escuros, tão magoados. Tens umas mãos tão frágeis e uma pele tão imaculada que às vezes tenho medo de te tocar…mas tu entregas-te aos meus cuidados sem medos, é essa confiança que tu tens em mim que me fascina e apaixona.
Acho que alguém perdeu um anjo durante a caminhada…Juro que às vezes até consigo ver as asas de puro branco desenharem-se nas costas delicadas.

Não.

As letras rectas, desenhadas sem o mais pequeno cuidado, brutas, riscadas com raiva, os traços desalinhados, despreocupados, cruéis.
Não seguem um padrão, diferem no tamanho, na forma, na rigidez. Mesmo as letras de contornos mais suaves não exibem a doçura que lhes seria característica, em vez disso há traços nervosos a ferir o papel. Traços que mostram muros construídos atrás das palavras, protecções com espinhos, paredes de medo erguidas com destreza atrás destes riscos soltos por um lápis de carvão enraivecido.
As palavras gritam o que querem dizer e gritam também tudo o que querem esconder, as letras interceptam-se acutilantemente, foram escritas com a crueldade na ponta dos dedos e nos olhos de quem as desenhou. É como se as palavras sucumbissem ao mal...escorrem fel.
E o carvão começa a desaparecer...mas as marcas de um coração aberto continuam lá...
Lê-se “Não quero. Não!” e há duas letras que medeiam a primeira frase, escritas timidamente em jeito de segredo envergonhado mas igualmente cruel: “te”.
O corpo esticado ao longo do colchão, um braço a pender do lado direito, o olhar fixo no lençol. Lá fora a chuva cai ritmada, insistente...o sol já não espreita tímido pela janela, cansado de tanto brilhar. As tuas palavras ecoam-lhe nos pulmões, na cabeça, latejam-lhe nas mãos. Os pensamentos escorrem da mente para o coração e do coração para a pele que queima com a força de uma tempestade no mar.
O teu olhar destrói as palavras, desfaz tudo o que acompanha. Deixas um rasto de fogo e cinzas nas pessoas que amas, quem entra no teu coração só consegue sair de lá amachucado. Há quem te diga que tens o coração sobrelotado e que as pessoas se espezinham lá dentro...tu ris e nunca pensas em acreditar.
Fecha os olhos, não tem forças para chorar, as costas desprotegidas parecem mais fortes que nunca mas por dentro só deixaste folhas amarrotadas, cartas que escrevias ao som de dois corações a bater em uníssono e que nunca foste capaz de acabar. Os pés gelados começam a incomodar o corpo estático, tornaste-te tão físico e não passaste duma brisa agradável mas com a capacidade de deixar alguém de cama. O pescoço começa a doer. Vira a cabeça para o outro lado e involuntariamente vê uma fotografia tua, fecha os olhos e pela primeira vez obriga-se a respirar...Desaparece...” murmura, desejando exactamente o contrário.

E a estrela caíu...


Olhava para a estrela e pedia com força que lhe roubasse a vida. Fixava-a como que a pedir-lhe que descesse e o matasse.
Desistiu...Todo o ódio que tinha naquele olhar desaparecera com um sorriso.
- Vou pedir outro desejo, algo agradável...
E com o mesmo sorriso desejou que todo o ódio, toda a dor e sofrimento que o pudesse atingir se transformasse posteriormente em amor e alegria. Fechou os lábios mas não deixou de sorrir. E a estrela caiu...E chorou por pensar que nem os seus desejos conseguiam durar.
Beatriz subiu as escadas e sentou-se ao seu lado. Perguntou-lhe porque chorava, ele respondeu que a estrela que continha o seu desejo tinha caído, ela sorriu aliviada e o pequeno rapaz, chateado, perguntou-lhe porque ria se a situação era tão triste. Ela respondeu calmamente e explicou que a estrela que caíra não morrera, antes pelo contrário, depois de saber que guardava um desejo dele, viera alojar-se no coraçãozinho magoado do Rodrigo.
E, confuso, o Rodrigo agarrou-se a esse pensamento. Embora não percebesse muito bem o que a sua irmã queria dizer com aquilo. Pôs a mão sobre o peito e sentiu o coração bater, susteve a respiração e procurou o coração brilhante da estrelinha no silêncio da noite. Porém, não o sentiu, nem o ouviu. Indignado perguntou à irmã porque não sentia o coração da estrela, Beatriz pensou na sua mãe e na explicação que lhe tinha sido dada quando também ela não conseguira encontrar um outro coração dentro dela. Sentiu as lágrimas procurarem-lhe os olhos. Fechou-os.
Explicou ao Rodrigo que a estrela se fundira com ele e que o seu coração, agora, servia para os dois.
- Mas se a estrela está dentro de mim, como é que pode realizar o meu desejo?
- Ela não o vai fazer sozinha, vai ajudar-te a fazê-lo. Tu é que o vais realizar, ela só te dar força suficiente para não desistires.
Rodrigo ficou resignado com a resposta. Um sentimento que conhecera após a morte da sua mãe. Mas com a estrela dentro de si não se chateia por se resignar.
Pensou então em guardar mais estrelas dentro de si, mas achou que era cruel roubar as estrelas do céu.


(escrito já em 2003)

Ele entrou no mesmo metro que ela e ela saiu na mesma estação que ele. Ele virou à esquerda e ela virou também. Ele saiu, voltou a virar à esquerda e ela foi atrás porque também era por ali o seu caminho, depois ela virou à direita e subiu a rua e ele caminhava ao seu lado.

«Ela também vem por aqui?»
«Ele vai virar ali não vai?»

E ambos seguiam lado a lado sem mais ninguém na rua.

«Este silêncio...ela até é gira.»
«Ele podia dizer-me "olá", tropeçar, pedir uma informação estúpida..sei lá.. e ainda não lhe consegui ver bem a cara, mas parece-me bem.»

Passaram por um rapaz que segurava um cão pela trela à porta de casa e dizia ao telémovel que estava sentado a ver televisão.

«E agora será que ela mora aqui?»

Ela suspirou.

«Coitada parece tera mochila pesada, se calhar devia perguntar se quer ajuda»
«Ele podia perfeitamente perguntar-me as horas!»
«Ela não tem relógio no pulso...seria estúpido perguntar-lhe as horas!»

Viram em uníssono na mesma esquina e ambos se precipitam para a passadeira.

«E agora para onde é que ela vai..?»
«Acho que ele vai continuar...paciência, pode ser que nos voltemos a encontrar p' ra semana!»

Ela vira à direita resignada e ele tem vontade de ir atrás dela mas não o faz.

«Ela nem olhou para trás...»

Gostavas de fazer tudo ao mesmo tempo, era por isso que te sentias tantas vezes confusa. Querias tudo, todos, não gostavas de opções. Sentias-te capaz de abraçar o mundo, mas quando te davas conta do modesto tamanho do teu abraço, fugias da vida como quem foge da chuva. Mas a vontade que tinhas não serenava e voltavas a cometer os mesmos erros.


Acho que nunca te apercebeste da quantidade de gente que deixavas caída no passeio do teu caminho.


Tinhas tanto para dar e tão pouco para receber. Um dia, um fim de tarde estival, vieste chorar no meu colo, penduraste-te de tal maneira ao meu pescoço que eu achei que ficarias ali para sempre…mas não ficaste, havia tanto à tua espera e tão pouco tempo! Limpaste as lágrimas, olhaste-me nos olhos e disseste: obrigado e desculpa.


E fugiste.


E de cada vez que eu te servia de porto de abrigo tinha a esperança de que um dia não largasses o meu pescoço. Mas nunca ficaste…

*"Eat dessert first, Life is uncertain"*

I am unwritten, can't read my mind, I'm undefined
I'm just beginning, the pen's in my hand, ending
unplanned
.
Staring at the blank page before you
Open up the dirty window
Let the sun illuminate the words that you could not find
.
Reaching for something in the distance
So close you can almost taste it
Release your innovations
Feel the rain on your skin
No one else can feel it for you
Only you can let it inNo one else, no one else
Can speak the words on your lips
Drench yourself in words unspoken
Live your life with arms wide open
Today is where your book begins
The rest is still unwritten
.
"Unwritten" - Natacha Bedingfield
.
A todos muito OBRIGADO pelos bons momentos!

Tu querias caber na minha mão. Querias que eu te protegesse que eu te resguardasse de todos os males…Oh minha pequenina, tu não cabias na minha mão porque tinha sempre as mãos ocupadas. E refilavas, dizias que os meus pacientes cabiam nas minhas mãos, ao que eu respondia que tu não cabias na minha mão porque estavas no meu coração. E tu sorrias…Esse sorriso tão lindo, tão mágico e cheio de luz…E dizias que me amavas, repetias tantas vezes que gostavas de mim. Eu ria e não dizia nada.


Ah…as saudades que eu tenho de ti.


Houve um dia em que não disseste que me amavas…e outro e outro…e depois um dia em não te vi…e outro e outro. Desapareceste de mim e eu só me apercebi agora…porque sinto a tua falta.

pling!


Uma gota fria, gelada, deliciosamente gulosa, doce. Precipitou-se furtivamente para o chão.
- Ai Luísa! Pingaste-me o pé!
- Desculpa!Não foi por querer...Mas também, quem te manda vir de dedinhos à mostra!?
Risos e um olhar de desafio.
-Eu estou no meu direito! É verão...Tu é que não tens nada que estar a lambuzar-te com o gelado!
A resposta desenrascada e ligeiramente insolente a esconder um sorriso.
- Ora essa! Tenho tanto direito quanto tu! E com tanta conversa só vais fazer com que o gelado derreta ainda mais....
- Já me calei!
As duas sentadas no muro de uma casa anónima. É verão, é fim de tarde. Está calor e estão cansadas, passaram o dia todo na praia e agora estão à espera dos amigos para jantarem juntos e sairem. Entretanto a Luísa ataca um gelado.
A serenidade dos dias de verão...momentos bem passados.

O sol não está aí...

Não procures o sol debaixo dos mal-me-queres, já sabes que não está lá. É escusado deitares o teu corpo na erva e procurares a luz que te dá calor. Vá lá...pareces uma criança. O sol está aqui ao pé de mim, porque não te sentas ao meu lado?Juro que te ponho o sol nas mãos, mas não o procures debaixo das flores, sabes bem que ele não tem razão nenhuma para se esconder...Não enquanto houver flores de todas as cores e feitios, não enquanto tu te divertires a encontrar joaninhas e a juntá-las. Sim, esse é outro hábito estranho, quando um dia te perguntei porque o fazias respondeste com altivez na voz e o balanço de quem adormece um bebé nas palavras, disseste que num planeta tão grande elas andavam todas perdidas e obviamente precisavam que tu as unisses. Para ti é sempre tudo tão óbvio.
Agora levanta-te, anda lá. Já te disse mais do que uma vez: o sol não está debaixo dos mal-me-queres.

Uma mão cheia de vento

O silêncio, o leve balançar do silêncio. O eco da ausência que desfaz a pele queimada da vida. A inconstância do vento que acaricia a alma.
Adoro o vento. Senti-lo enebriar-me os sentidos é tão libertador. Parece que o tempo pára, até o sol se demora mais no dia. É dos poucos momentos em que as palavras são realmente desnecessárias, dos poucos momentos em que a fúria transmite calma, quando o vento de tão violento nos faz esquecer as perturbações do quotidiano.
Não me importo de levar com areia quando estou deitada na praia, sei que se me levantar vou adorar sentir o vento na pele e a areia não me vai incomodar nada. Também não me importo de ter o vento nas minhas costas a revolver-me os cabelos, basta-me dar meia volta e oferecer-lhe um sorriso.
Gosto. Gosto tanto de estar sentada no meu baloiço com os tornozelos cruzados e os pés no ar, sentir as cordas a balançar com o vento, olhar a paisagem e apreciar as coisas simples da vida. Porque tenho a certeza que a felicidade é simples.
De cabelo atado e sorriso aberto passeava pela praia, toda a beleza do mundo concentrada nos seus pés que pisavam a cauda das ondas.Sorria, o mar conversava com ela, contava-lhe histórias de príncipes e princesas e beijava-lhe os pés com uma languidez poética. O sol queimava-lhe os ombros, atrevido e ciumento, enquanto ela acariciava a areia com o seu corpo. As ondas insistentes reclamavam a sua atenção constante, também o doce balançar do vento lhe sussurava histórias de outros tempos e lhe abraçava a pele num suave e reconfortante toque.A natureza degladiava-se e ela deliciava-se. Num passo mais firme sentiu algo afiado na planta do pé. Um fio de prata com um pendente em forma de estrela. Reluzia fortemente e estava em perfeito estado. Sentou-se na areia seca e enterrou os pés. Enquanto observava com atenção o fio, imaginava as hitórias que ele poderia guardar...e enquanto sonhava acordada, o sol, mais calmo, foi-se aproximando do mar.Ela pôs o fio ao pescoço e voltou a abrir o sorriso para a natureza.

Às vezes as palavras...


ficam perdidas no fundo de um olhar...

Raiva?

Sentimento estranho que revolve entranhas e destrói sorrisos.
Há sombras que se misturam, imagens que se revoltam e desaparecem, palavras que desvanecem com violência da mente. Há uma porta trancada com a fechadura roída pela ferrugem. Há uma janela que bate incessantemente e faz saltar a tinta branca da madeira, duas lágrimas contidas a encher os olhos, dois lábios cerrados, encostados a uma alma inquieta devastada pelo vento.
E depois há dedos nervosos a balançar agilmente a caneta, unhas frágeis entre os dentes irrequietos, uma respiração entrecortada que não deixa sossegado o coração. Há palavras arremessadas contra os momentos que magoam, palavras que escorregam suavemente na pele e deixam marca. Há olhares aflitos, há fotografias manchadas de sal, espaços vazios do sol, feridas abertas que sangram, cicatrizes escondidas...Punhais pousados nas mesas, espadas encostadas ao sofá.
Há um cheiro de luta no ar, mas as cores que vejo vêm das tuas lágrimas...
O gato espreguiçava-se com languidez no tapete da sala, as horas de sono profundo a reluzirem no lombo e aquele olhar de dolce far niente que se espalhava até aos bigodes. Ele, sentado no sofá tentava ler o jornal, mas as noticias eram sempre as mesmas, o mundo estava tão igual. A temperatura abrasadora lá fora não ameaçava aquela sala, recatada, acolhedora, como que um anexo à casa. Fora construída na parte poente e era forrada a vidro. Transbordava luz natural.
Havia uma aparelhagem a um canto que gemia canções calmas de outros tempos, um sofá largo e confortável que servia de abrigo nos dias mais pesados, um tapete espraiado no chão de madeira e a sustentar uma mesa com um jarro de flores. Junto à vidraça havia bancos com almofadas...a verdadeira suite do seu gato.
Ele gostava de se sentar no sofá e ver o por do sol sem sair de casa, gostava de ouvir música de olhos fechados, cada palavra...a vida começava a andar em câmara lenta...E os seus cabelos começavam já a ficar grisalhos.
Hoje desistiu do jornal. Chamou o animal para o seu solo e ficou a ver o sol adormecer enquanto lhe afagava a cabeça. E por momentos o tempo parou...

Como chocolate...

7 anos, sentado no sofá a ver o que a televisão lhe dá. Uma avó preocupada que quer que ele lanche. Ele não quer comer nada a menos que tenha chocolate...
- Mais chocolate não! - Diz a avó.
- Então não quero nada.
A avó olha para mim e pede-me ajuda, "vê lá se consegues fazer com que ele coma qualquer coisa de jeito"...Eu pergunto-lhe se quer lanchar comigo, digo-lhe que lhe preparo o leite e a tosta. Pergunto-lhe se não há nada que eu possa fazer para o lanche que ele queira. Ele diz que e não e passados uns minutos diz:
- Mas sabes, há uma coisa que podes fazer...
E eu pergunto o que é. Ele levanta-se e leva-me até ao sofá:
- Sentas-te aqui, assim...
Eu obedeci e ele saltou-me para o colo e abraçou-me.

Terra e Mar

Molhou os pés nus na água fria, o cabelo solto dançava-lhe nos ombros e caminhou pela praia até se cansar.
A maresia embalava a bainha do vestido e ela repousava o corpo, sentada no paredão. As ondas rebentavam à sua frente e ela nunca sentira frio perto do mar, mas hoje estava a tremer. Ele chegou e sem perguntar nada sentou-se ao lado dela, deu-lhe a mão e sorriu...ela olhou-o com ternura mas não retibuiu o cumprimento. Permaneceram assim de mãos dadas durante longos minutos, até que ele falou.
- Como estás?
Ela olhou para os seus pés, os dele ao seu lado. Olhou para ele e respirou fundo.
- Agora estou bem...gosto disto aqui.
Ele tirou o casaco preto e pousou-lho nos ombros delicados, puxou-lhe os cabelos para fora do agasalho. Ela sorriu e agradeceu. O negro do casaco pousado minuciosamente no bege claro do vestido. Ele abraçou-a e ela encostou a cabeça pesada no ombro dele.
- Tenho medo que isto um dia desapareça...
As palavras receosas e singelas, deixadas ao acaso na brisa do mar. A voz ainda de menina que pedia abrigo.
- Isto o quê?
- Tu e eu...
Um sorriso tímido.
Ele riu e apertou-a com força.
- Sabes bem que não se pode separar a terra do mar.

..my joe=)
Do meu telhado vê-se o céu, é quase como se pudesse tocar-lhe, como se pudesse tocar as nuvens brancas, feitas de algodão. Quase como se pudesse pôr o sol a brilhar ainda mais.
No meu telhado consigo abraçar o vento e viajar em pensamento...E à noite posso desenhar com as estrelas e misturar sonhos no tecto da noite. Do meu telhado dou os bons-dias à manhã com mais ênfase, abraço o dia com um sorriso e salpico-o com sol e música e palavras de alegria. E eu gosto tanto do meu telhado, gosto de me sentar e esperar pelo fim da tarde quando o amarelo brilhante se funde no azul poente e não forma o verde. O amarelo mágico do sol estampado no azul suave do céu vai dar um laranja-rosado quente e muito doce. E fico por ali a ver esta conjugação de cores segura pela linha do horizonte, sentada no meu telhado de zinco e papelão...

Viúva-do-ventre-liso

As mãos caídas no colo cansadas, os olhos fechados num sono inquieto. E sonhava. Sonhava com uma casa perto da praia, com três crianças a correr no jardim, uma menina e dois rapazes. O sonho repetia-se nas tardes solarengas e quentes na soleira da porta.
A roupa preta, num luto de cárcere, de tristeza suja. Um luto tão pesado e tão arrastado que já deixara de ser tão preto. E a cor das roupas passara-lhe para os olhos, agora restava-lhe uma cadeira de balouço no fim das tardes passadas no campo, nas hortas. Uma cadeira que lhe devolvia o sono e a noite, que lhe permitia os sonhos. Mas o que sonhava não variava conforme as tardes de verão ou de inverno, era sempre o mesmo...as três crianças a correr alegremente, ela a levar-lhes sumo de laranja para refrescar as brincadeiras, tantos sorrisos, tão perfeitos. E só quando acordava a meio da noite, assustada com o cantar nervoso dos grilos, se levantava languidamente da sua cadeira de balouço e se dirigia à cama...pensava em si e questionava-se onde estariam os netos que nunca teria e os filhos que nunca tinha tido.
A viúva-do-ventre-liso, chamavam-na. Nunca ninguém soube como isso a magoava.

As palavras espalhadas nas folhas encardidas e velhas de um caderno qualquer. A rosa seca pousada minuciosamente ao seu lado. Sentada nas escadas, olhava com nostalgia para as suas mãos, estavam brancas, frias, secas como a rosa amarela caída do seu colo para o mármore.
Há quanto tempo já não sentia aquele calorzinho na barriga e nos dedos de quem está apaixonado?Aquela alegria escalarte de uma vida agitada cá dentro. A rosa morta conta-lhe que um dia fora tão feliz que quando se sentava naquela escada era numa espera nervosa por um sorriso maior que chegava antes do pôr-do-sol, invariavelmente.
E agora porque esperava? Uma gota salgada e quente caiu numa das mãos geladas. Sensação de perda. Não sabia porque esperava. Há muito tempo que deixara de esperar o que quer que fosse, há tanto tempo que as pétalas secas se começavam a desfazer...
Mas a verdade é que gostava de estar ali sentada, era sossegado e a espera infrutífera já não a incomodava. Mas mesmo depois de habituar a alma a uma calma dolorosa, ela não consegue evitar a expectativa.
E a sua alma seca continuava ali na esperança de um dia poder agradecer a rosa.

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