30 de janeiro de 2015

Dança

As palavras que escorregam na ponta da caneta dançam. Ondulam pelo papel, pulam nos verbos, rodopiam nos adjectivos. Fazem de cada frase um espectáculo e de cada parágrafo uma temporada de teatro. Organizam um bailado só para mim, sem seguir ordens de director ou argumentista.

Dançam apenas, como se a música não fosse a minha mente. Nos dias em que o espectáculo é triste, aninham-se umas nas outras, tímidas e escuras. Nas sessões mais animadas abrem as vogais e quase cantam. Há dias em que até insistem em rimar. E nunca, mas nunca, param de dançar.


Foto: Daniel Nunes

26 de janeiro de 2015

Cadernos Vazios

Há uns anos dava por mim a colar folhas aos cadernos porque os acabava tão depressa. Hoje dou por mim a coleccionar cadernos vazios.

São fantasmas por entre os livros que leio, à espera de serem exorcizados. São lençóis por usar à espera dos sonhos que ainda tenho por sonhar. São espelhos virados uns para os outros onde ninguém se vê reflectido.

E ficam, permanecem abraçados pelos livros que já li, que não leio e que um dia vou ler. Esperam pacientemente, como se me ouvissem sussurrar "um dia volto a ter tempo para escrever".

Eu olho para eles e vejo-os: orfãos de tinta e caneta, vindos de mãos leitoras e ansiosas, cheias de esperança na entrega de uma chave para uma obra de arte.

Para mim, estes cadernos vazios são preguiça e pressa: preguiça de desmontar a vida e pressa de a viver.




Mas eu prometo, vou voltar a escrever.


14 de janeiro de 2014

Sono

O sono, inoportuno, importuna-me os pensamentos. 
Se as horas passam não dou por elas, perdida entre palavras e momentos.

O que me tolhe as vontades não é o que não me dizem, é o que não digo. O veneno não se vê, não me sabe a nada… mas dói-me na pele. Consome pequenos pedaços e deixa-me o sono. Fica a anestésica sensação de querer esquecer.

Mas o descanso não me alcança facilmente. O dia ainda tem tantas horas com o meu nome. Quantas terá a noite?

10 de dezembro de 2013

Casa coração

Quando um amor é desfeito é como se as paredes da nossa casa desaparecessem.

Quando amas dás tudo, vives nessa pessoa. Fazes casa nela, aninhas-te e até deixas os chinelos à porta. Ficas confortável. Segura. Quando essa pessoa te diz que vai alugar o quarto que tem no coração a outra pessoa é duro. Onde é que vais arrumar as tuas tralhas? Onde deixas a roupa, os pijamas e os sapatos? Fica tudo à deriva, uma nuvem de coisas que já não têm lugar. 

Tentas escondê-las num armário bafiento que tinhas lá por casa, mas nem tudo cabe. Tens de encontrar outro. Um quarto confortável onde arrumes tudo o que trazes na bagagem. Mas olhas à volta e só te aparecem dispensas escuras. Não chega e não te chega. Para tudo o que trazes contigo, nem tu te chegas.

Aos poucos vais deixando coisas aqui e ali, perdendo algumas, esquecendo outras. Ficas com aquilo que realmente te faz falta. E depois é só esperar para encontrar um quarto simpático: um 2º andar, por cima da aorta, com vista para o ventrículo esquerdo... Um daqueles que te faça feliz.

19 de novembro de 2013

Das coisas que não se vêem


São as melhores coisas do mundo, as coisas que não se vêem. As que passam despercebidas no radar de quem conta os dias. Aquelas que não se guardam em caixas, envelopes ou cofres. E no entanto, são as coisas que não se vêem que vale a pena guardar. Mas guardar no coração, nos sorrisos, na memória que nem sempre funciona bem... nas nossas caixas internas, as que temos sem saber e que nos arrumam a alma.

As coisas que não se vêem são também as que devemos mostrar. Os postais, os telefonemas, o elogios grátis, o desvio de carro para oferecer boleia a alguém. Ensinou-nos Exupéry que "o essencial é invisível aos olhos" e que são as coisas que não se vêem que tornam o deserto bonito, que são essas que nos fazem ser quem somos. Ficamos nós mais bonitos e o nosso deserto menos deserto.

21 de agosto de 2013

Até...

A ponta do coração encosta-se ao estômago e a tarefa de desfazer este nó cabe à coluna que se esforça por te manter direita. O sabor que as coisas têm é vazio, esquecido que ficou o doce de uma cereja no travo amargo de um lima.

O tempo, alinhavado a dias e bordado a horas, atravanca os momentos doces numa gaveta escura e, quando dás por ti, tens uma vela na mão e vasculhas os armários à procura desse lugar onde foste feliz.

Quantas vezes, consciente dessa incessante busca, decides apagar a vela e ficar no escuro, perdida entre o que foi e o que será. Irremediavelmente hesitante. Com todas as dúvidas do mundo a pulsarem-te nos dedos, todos os olhares a fecharem-te as pálpebras em lágrimas. 

Guardas o que te sobra e arrumas o que podes. Até à próxima vez que as certezas te caírem ao chão.

E a força de não te ter é maior do que a de te querer.

29 de julho de 2013

Lisboa Apetecida


Hoje apeteces-me, Lisboa.

Apetecem-me as tuas ruas e vielas, as janelas abertas a dar luz aos olhares esquecidos dos avós. A serenidade dos braços pousados nos parapeitos, a respiração calma de quem olha os dias e vê a vida que já passou.


Tenho vontade de esquecer as obrigações e saltar do autocarro para a calçada. Tenho vontade de percorrer os passeios que te desenham a cintura, as esquinas do teu sorriso. Quero beber da tua luz, amarela, quente, poética. Ver o dia passar... a passear por ti.  

Levar o olhar a cada cor, cada pormenor que escondes aos desatentos - aqueles que usam a rotina como um vestido de gala. Quero despir esse vestido, calçar uns ténis e percorrer as tuas ruas, Lisboa. Ver-te, saborear-te. Porque hoje apeteces-me. 

Houve um tempo em que não me apetecias, meses em que me atacavas. Dias em que gritavas os teus sons e me ferias com as tuas cores. As noites eram enlameadas e ruidosas. Estavas fechada para mim e nem eu te queria, não gostava de ti. Passaram-se anos e, sem dar por isso, conquistaste-me. A pouco e pouco foste descobrindo a beleza que escondias e eu fui amolecendo. Adoptei-te de novo - porque sempre foste a minha cidade berço - e adoptei-me em ti.

E hoje, como acontece em todos os Verões, tenho vontade de me sentar nos miradouros e escrever. Soltar as palavras em ti, para ti. Respirar fundo, o teu cheiro, o ar quente. Inspirar o último raio de sol, como quem se alimenta pela manhã. E abraçar a noite como uma despedida... agridoce, mas serena.

Apeteces-me, Lisboa. Espera por mim, um dia hei-de ter tempo.


9 de julho de 2013

Se sabes

Se sabes o que não queres, sabes o caminho que levas. Se sabes quais são os caminhos, a escolha é tua. Não é fácil, mas é tua. Se sabes o que te faz sorrir, procura esse olhar. Procura sem esperança de encontrar, tira o peso dos ombros e procura enquanto vais vivendo. Mas vive. Se sabes alguma coisa, vive. Se sabes o que te aquece o coração, faz a fogueira e deixa arder. Faz acontecer. Se sabes, vai à luta.


E quando não souberes, inventa. Inventa um mar de água morna, uma cama de rede que te guarde os sonhos. Estica os dedos e molda uma realidade pintada com as cores que tu escolheste. 

Se sabes, faz. Se não sabes, inventa. O mundo é teu e, às vezes, não faz mal não saber.

3 de julho de 2013

Palavras, outra vez.

Sempre. 

São elas que me levam, que me agarram, que me descansam e que me acordam.


É nelas que pego, como rochas, é sobre elas que penso antes de as atirar. São elas que se desfazem na minha mão antes de eu perceber que não as posso usar como quero. São elas que sabem onde cair. Mesmo quando não as quero dizer.

É a forma como se moldam na minha mente que me surpreende no papel.


13 de maio de 2013

Poucas Palavras

Há dias assim, de poucas palavras. De longos parágrafos sem nada para dizer.

Há dias que nem são dias, nem são palavras.

São cadeiras numa sala de espera vazia à procura de alguém que lhes dê presença. E as palavras que se ouvem não são nomes, nem ordens. São palavras brandas e vazias: mais silêncios do que letras. 

As horas são compostas de pausas sem som, nem forma. Os dias são feitos dos minutos que se fazem sozinhos... sem pedir autorização, sem dizer a ninguém.

Há dias assim, de poucas palavras... e muito por dizer.

14 de março de 2013

Pergunta-me noutro dia.


Essas perguntas difíceis, pergunta-me noutro dia. Aquelas que guardas no pensamento e que tens medo de fazer a ti mesmo. Hoje respondo-te o que posso. Mas pergunta-me noutro dia. Num dia em que possa compreender o meu estado de espírito. Num dia em a chuva não faça dos dias despojos cinzentos do Inverno.

Essa pontuação. Guarda-a para outras horas em que os pensamentos não me pesem. Hoje a reposta é esta. Nem sim, nem não. Nem nada. Deixa os pontos de interrogação para quando eu conseguir pôr os pontos nos is.

8 de janeiro de 2013

De outros dias

São dias que não são nossos. Ou que não querem ser. Dias que se empurram para chegar a nós e que nós chutamos para longe. Dias de outros.

Nessas manhãs, olho à minha volta e vejo as pessoas, vejo as histórias que invento displicente para elas.  Vejo os sorrisos, os gestos, a roupa que escolheram e a razão que eu lhes dou para a escolherem. E podia olhar para elas o dia todo: deixar os meus pés perdidos pela cidade, dentro e fora dos cafés, para a frente e para trás nos autocarros... até conseguir voltar.

Há dias que não são nossos porque não queremos que sejam. Porque, nesse dias, não nos queremos.




15 de outubro de 2012

Dança de Criança


Às vezes penso que devia crescer. Deixar de pintar as unhas de verde e de fazer bolas de sabão. Deixar de sonhar com uma piscina de bolas coloridas. São lugares felizes que insisto em tentar arrancar dos dias que já não os têm. São sorrisos patetas que não fazem sentido para o resto do mundo. É uma música que já ninguém ouve. A vida não é uma dança de criança. E quando me perguntarem o que fiz à criança que havia em mim, respondo: “deixei-a crescer”.


25 de setembro de 2012

Adivinhar

Houve uma altura em que me disseste aquilo que eu te ia dizer. E quando te contei, respondeste:

- Estava a adivinhar-te.

Estavas a ler-me e a reler-me até que as palavras nos meus olhos fizessem sentido para ti. Estavas a tentar passar pelos sorrisos para descobrir algo mais: aquilo que fica atrás do que digo sem pensar. Estavas a convidar-me a abrir a porta para te mostrar a minha casa. Estavas a adivinhar-me porque estavas a tentar conhecer-me. Às vezes penso que conseguiste.

29 de agosto de 2012

Fotografias

Gosto de fotografias bonitas. Gosto das histórias, dos sorrisos e dos comentários atrás da imagem que se guarda. Chateia-me que as imagens sejam mágicas e que as pessoas percam a sua magia. Não gosto que a tinta se esbata e muito menos que as memórias desvaneçam. Mas há memórias que se degradam debaixo do pó que acumulamos nos dias. Imagens que ficam embaciadas pelo tempo, palavras que os nossos ouvidos esquecem. As fotografias ficam e selam durante mais tempo aquilo que sentimos, desenterram esqueletos e trazem à vida momentos que nem sempre nos fazem feliz pela sua ruína. Mas, durante mais tempo, ficam. Mais tempo do que a memória. Muito mais tempo do que as palavras. Dizem-me que as fotografias também se podem apagar. Não sei se acredito.

27 de agosto de 2012

A noite cai.

Ela sonha. Leva asas nos pés, palavras nos dedos. E aquele sorriso despreocupado de quem ainda se fascina com os pequenos milagres. 
Há dias em que o mundo não percebe como é que os sorrisos se sustentam na sua expressão. As pessoas olham para ela e não compreendem como é que os lábios rasgam a tristeza para receber o que há de bom na bainha dos dias. E ela acredita. Tem a certeza de que no cruzamento do sol no horizonte sobram estrelas com sabor a girassóis. Sabe que o algodão doce são pedaços de nuvens, mesmo que perceba que no fundo são feitos de açúcar. Fecha os olhos ao cinzento da chuva, mas abre as mãos para receber o fresco da água que cai. Esconde o que de feio têm os seus pensamentos e escolhe as cores com que pintar a sua felicidade. 
Mas às vezes nem as mais brilhantes cores chegam para tapar as tábuas partidas da sua casa. E a noite cai. As estrelas dizem "boa noite" e ela fica só. Adormece embalada ao ritmo do seu coração, anoitecida pelo silêncio.

Monstros


Voltou para casa com a noite a cobrir-lhe os olhos e o frio a embaciar-lhe os vidros do carro. Aquela sensação agridoce era familiar. A música roufenha e o banco desconfortável. A cozinha fria e húmida, o estômago também. O caminho curvou-se à sua vontade e levou-o a casa, sem segredos, nem medos. Ele carregou cada lágrima por chorar e guardou-as numa caixa. Arrumou a sombra que trazia agarrada a si. Despiu as dores e vestiu a leveza de ser só, só ele. Sem pensamentos esquecidos nas pontas dos dedos, sem olhares cheios de palavras que nunca diria. Esse pequeno mundo de almas voltaria a engoli-lo ao nascer do sol.
A cada final do dia abandona as dores no tapete da entrada e aconchega em si o que precisa para descansar. Nada mais. Sempre lhe disseram que não era bom levar os monstros para dentro de casa.

25 de março de 2012

Sonhos

Limpei o teu cheiro de mim, apaguei-te das paredes desta casa. Escondi tudo o que tinha vindo das tuas mãos para as minhas. E fiquei serena, mais calma... até adormecer. Como é que te arranco dos meus sonhos?

13 de março de 2012

Esquece

Esquece a luz do sol que te aqueceu. Esquece a voz que te acalentou o sonho. Não te lembres de relembrar os momentos desenhados a sorrisos e brilhos no olhar. Esquece e recomeça. Aquilo que esqueces não te pode magoar.

30 de dezembro de 2011

Rio

- Então, não estás a olhar!
- Não preciso, vejo o rio nos teus olhos.
Ela riu, boca escancarada, dentes brilhantes a reflectir o sol: achou aquilo tão foleiro que não conteve o riso. Mas gostou.
- Vês? O meu charme é irresistível.
Olhou para ele com um sorriso de gozo comprimido nos lábios. Ele continuou:
- Gosto de gargalhadas fáceis. E a tua é deliciosa.

28 de novembro de 2011

Encontros

Não a ouvi mas senti-lhe o cheiro. Uma lufada de ar fresco com um travo doce que interrompeu o meu pensamento. Não sei se mais alguém a sentiu, desde que perdi a visão o meu olfacto apurou-se.

Com alguma falta de inocência toquei-lhe nos pés com a bengala, foi uma provocação maliciosa porque sabia perfeitamente onde estava o corpo dela - mas às vezes gosto de tirar partido da minha condição. Pedi desculpa apressadamente e ouvi-a responder "não faz mal" numa voz quente e segura, quase cerimoniosa. Senti-lhe um sorriso nas palavras e isso obrigou-me a sorrir também. 

14 de novembro de 2011

Hipocrisias

Sento-me e olho à minha volta. As malas e mochilas carregam roupa, comida, livros e memórias que nem sempre sabemos que trazemos conosco. Os rostos nada me dizem, os olhos fugidios escondem-se em mundanidades e afastam a perturbação que lhes rouba o sono. A vida é feita de hipocrisias. 

E as malas seguem fechadas com cadeados coloridos que usamos para desencorajar os mais curiosos. Os segredos guardados que escondemos com os segredos que partilhamos. As palavras que tememos encobertas pelas frases que construímos à força. Os sorrisos que montamos como jaulas para controlar o gelo da angústia tornaram-se nos nossos sorrisos mais genuínos. Dizem-me que a tristeza é momentânea e que a felicidade vai e vem, que vivemos numa fronteira beligerante como refugiados e que procuramos incessantemente um equilíbrio que nos desequilibra.


A vida é feita de hipocrisias.

18 de outubro de 2011

Todos nós temos histórias às quais não queremos pôr um fim.

17 de outubro de 2011

Quando

Quando não temos forças, sorrimos e deixamos que a maré nos leve para longe. Quando acordamos, esperamos que o dia se desdobre sem sobressaltos que nos façam perder o rumo. Quando perdemos o rumo, procuramos um lugar seguro que nos aconchegue a mente e a alma.
Às vezes, quando te digo que sim estou a tentar dizer-te que não. E quando sorris não sei o que queres que eu pense. Quando as horas se atropelam sem sentido, vamos correndo atrás do tempo e contornamos o que nos faz falta. Fingimos que está tudo tão bem como estava. Que o presente é um espelho embaciado do passado, só precisa de se habituar à temperatura. Quando tropeçamos esquecemos que podemos cair... e continuamos a andar.

É um jogo desconexo e sem regras que nos conduz pelas rotinas. É uma relação simples de consequências que nem sempre queremos confirmar. É um atropelo ordenado pelas ruelas do pensamento. Ninguém perde, ninguém ganha. O jogo não é nosso.


24 de setembro de 2011

Suspiro

Estou cansada de puxar, de tentar, de sentir. Estou cansada e às vezes tenho vontade de desistir. Por isso suspiro. Suspiro baixinho para ninguém perceber. Suspiro por dentro para tentar esquecer. Suspiro porque para mim importa, porque não consigo fazer uma pausa para pensar. Suspiro porque não quero pensar, porque não posso fugir. Suspiro porque não consigo parar de respirar

21 de julho de 2011

Da última vez foi diferente, mas há ciclos que se repetem, dos quais não consegues fugir por muito que tentes. Armadilhas que o teu cérebro cria para defender qualquer outra parte do teu corpo. Da última vez, quando tive dúvidas, ignorei-as. Deixei que se apagassem com a chuva quente e o vento de outros lugares. Quando dei por mim já eram certezas e não havia nada a fazer. Desta vez ouço as dúvidas com a força de um trovão,não as consigo ignorar. Mas não sei como as desenhar nas palavras nem remexer nas luzes de aviso da percepção. Não sei o que fazer com elas. Mas tenho medo que se transformem em certezas. Daquelas frias, que mordem os dedos e as lágrimas.

16 de junho de 2011

certeza


Às vezes tenho a certeza. Uma certeza gélida que me aperta a garganta. Uma certeza que me rouba as forças e me escoa os olhos.  Não é um leve sopro. É uma angústia espessa que me corrói os pensamentos e me envena as palavras. Não é uma dúvida. É uma resposta nascida de uma pergunta por fazer. E às vezes essa certeza apodera-se de tudo o que toco com o olhar. A certeza de que não vamos sobreviver a isto.

30 de maio de 2011

Chegar, chegamos.

Às vezes é preciso acreditar pela simples necessidade de continuar. Às vezes é preciso pôr as questões de lado e seguir, sem desviar o olhar. A estrada pode ser íngreme e tortuosa, podemos chegar com os joelhos esfolados e a testa suada, mas chegamos. Às vezes é preciso acreditar nisso... só nisso.

4 de abril de 2011

Nada mudou

Nada mudou. Mas, de alguma forma, nada é o mesmo. Como é que sabemos que algo se partiu? Quando é que percebemos que a ligação se perdeu? Qual é o ponto em que temos a amarga certeza que desligámos aquilo que nos dava energia? Sentir que nada mudou, mas que algo mudou.
Sentimo-nos escorregar no escuro até um refúgio que não existe. O conforto é a pele dormente, o descanso é a mente vazia. Como é que nos apercebemos de que deixámos de usar o instinto e passámos a usar a razão? A razão aconchegante que nos deixa tão áridos e secos.Ouvimos tantas vezes as mesmas frases… se nada mudou porque não é o mesmo? Descemos ao fundo, procuramos incessantes até ter o coração agitado e as mãos doridas. E depois percebemos. Sentimos a gota gélida da compreensão na nuca. Sentimos as mãos mais vazias do que nunca. Se nada mudou, a mudança aconteceu em nós.

22 de março de 2011

Escudo


Escureces. Encostada a um canto do dia para que ninguém te veja. Esperas alguém? Escutas. Escondes-te. Escrava do que te dizem que és. Esqueces o que te levou até ti. Escreves na tua mente o que não te atreves a dizer. Escavas o poder que as palavras te dão e que não queres usar. Esculpes as letras até não restar nada. Nem sentido. Nem ordem. Nem dor.

7 de março de 2011

estragada.

- Acho que estou estragada.
- Não és uma boneca que cai na água e fica estragada. Não é assim que funciona.
- Mas sinto que se partiu algo aqui dentro.
- Não sejas parva, estás só cansada.
- Dói-me a cabeça, mas não é uma dor que passe com um comprimido.
- Toma um na mesma.
- Estou estragada.
- Pára de dizer isso, não estás nada estragada. Onde é que foste buscar isso?
- Não sei, sinto-me estragada.
- Toma. Isto vai fazer-te sentir melhor.
- Não quero. Não me sabe bem, não me serve para nada.
- Ajuda. Confia em mim. E agora dorme. Amanhã vai ser um dia melhor.

31 de janeiro de 2011

Fé.

Percebo agora porque é que tanta gente sente a necessidade de acreditar num deus acima de tudo.
É tão fácil perder a fé nos Homens.

28 de janeiro de 2011

Medos

Segredos, receios, medos. Atilhos que nos amarram os movimentos e pedras que nos agarram ao fundo. Todos os medos que não ousamos pronunciar, com um redundante medo de que se tornem maiores e piores, encostam-se num cantinho de nós e descansam. Até que um dia há um barulho, uma luz, um tilintar na nossa alma que os acorda, que os traz ao palco e que os põe a gritar. Nenhuma das defesas que tínhamos construído distraidamente nos protege e nada aparenta encaixar. Então fechamos os olhos. Esperamos. Respiramos de pulmões apertados e confiamos que tudo foi um pesadelo, que vamos ficar bem, que nada disto vai deixar marcas. Mas deixa. E vamos coleccionando cicatrizes de guerras que nem sempre quisemos. E vamos escondendo as marcas por baixo de capas bonitas, brilhantes, que ofuscam a dor.

5 de janeiro de 2011

Como?

Como é que se encontra o caminho quando já nos perdemos nos atalhos? Como é que se conduzem os pés cansados até ao destino se ninguém sabe se ele existe?

Os passos dados no escuro nem sempre nos levam até à luz, mas ficar imóvel na escuridão não nos tirará de lá. Foram tantas as vezes que deixámos de ser nós a conduzir, tantas as vezes que perdemos o pé e ficámos sem fôlego. São tantos os medos que nos perseguem e que olhamos através do espelho sem fugir e sem os enfrentar. Tantas razões que nos sufocam e amarram. Como é que se esquece que escondidos no escuro podem estar outros perigos?

8 de dezembro de 2010

Sentimos

Cada beijo, cada olhar e cada gesto como se fosse só nosso. Como se pudesse durar para sempre. A cada passo despreocupado, a cada sorriso involuntário caímos na certeza construída de que desta vez acertámos, que desta é que é. 
As ilusões são tão próximas daquilo que acreditamos ser verdade que vamos, de sorriso nos lábios e olhar inocente, como se não conhecêssemos o perigo. Vivemos no céu e no inferno, no calor dos sorrisos e no gelo das lágrimas, numa montanha-russa de sentimentos à qual vão saltando parafusos nas suas contínuas viagens. Mas vamos, contra a maré, a sorrir, a tentar convencer todos os que nos rodeiam de que sabemos o que estamos a fazer de que temos a certeza. Às vezes estamos certos. Às vezes sabemos o que estamos a fazer... mas na maioria das vezes estamos apenas a arriscar às cegas na esperança de sair ilesos de uma luta injusta que não envolve armas. Mas muitas vezes a realidade cai-nos nos ombros como um piano lustroso com o peso de todas as dúvidas, todas as palavras escondidas, todos os silêncios desiludidos. E nós sorrimos. Continuamos. Fingimos que estava tudo previsto e que o comboio não saiu dos carris. Será que um dia vamos acordar e perceber que já nem sequer somos nós a conduzir o comboio?

16 de novembro de 2010

Cansaço

As pessoas cansam-se, a pele desgasta-se e as palavras de tão repetidas parecem não bastar. Sucumbiste. Deixaste cair os braços e a cabeça, deixaste a respiração encaixar no ritmo constrangido do teu coração e agora não sabes por onde começar. A garganta apertada guarda todos os medos e segura as palavras que vêm do peito. Só as frases desenhadas na tua cabeça têm livre-passe até à tua língua. E tudo o que dizes chega filtrado, purificado, sem mácula de emoção.
Repetes a lenga-lenga do cansaço até te convenceres de que tudo vai ficar bem se descansares, se dormires, se puderes fechar os olhos e fingir que o mundo parou... mas nunca fica e voltas a entrar numa espiral de enganos que te protege e te corrompe. Os dias sucedem-se com a intensidade e a insistência das ondas, vão corroendo barreiras e sobras tu, apenas tu. 
Sem armas, sem lutas, sem rumo.

11 de novembro de 2010

escrito

O mundo já foi escrito. Tudo já foi dito sob a forma de palavras, de metáforas e de parágrafos desenhados a sangue quente. E de que nos serve escrever os dias sem os sentir? Que sórdido consolo temos nas palavras que escolhemos com o cuidado cirúrgico de quem não sabe o que dizer?
O nosso mundo e o outro já foram vertidos em caixinhas literárias para que, sem nunca existirem, nunca deixarem de existir. Mas o mundo pede-nos para ser escrito todos os dias, para ser vivido, partilhado. E nós escrevemos tudo o que somos, em cada passo que damos... na pressa de deixar marcados os caminhos que trilhamos.

19 de outubro de 2010

Sem cor

A rotina desgasta. Vai roendo pequenos pedaços de nós. Mas também nos mantém em movimento. Empurra-nos como se o tempo fosse uma formalidade. Esconde-nos do mundo e deixa-nos numa sala de espera em constante circulação. É lá que permanecemos em serenas expectativas. Saltamos de cadeira em cadeira à espera de mais um dia sem saber de onde nos vai chegar e que música irá trazer. E sem querer, crescemos. O mundo perde as suas formas coloridas que nos punham sorrisos no rosto. As ruas já não estão desenhadas a lápis-de-cera e as bicicletas já não trazem fitinhas de arco-íris no guiador. Chove e a chuva já não é azul, roxa e vermelha, feita de pequenas poças onde molhar as galochas... e já nem o guarda-chuva é às bolinhas. 

26 de agosto de 2010

Tenho medo de me habituar à tua ausência... e deixar de sentir a tua falta.

25 de agosto de 2010

A beleza que nos esconde

As pessoas são um nojo. Somos maus, feios e cruéis por dentro. Temos a horrível tendência para cometer as maiores atrocidades aos outros seres humanos.
Hoje vi a beleza que nos esconde despir-se para mim e num acto nada sensual revelar os tenebrosos contornos da sua pele. As pessoas são más, feias no seu âmago por muito sublimes que se desenhem. E hoje vi com clareza o doce mel com que se cobre o fel que nos corre nas veias, senti os espinhos venenosos que se escondem nas folhas verdes à sombra da mais bela rosa.
Hoje, a humanidade não me serve porque é o reflexo do mais repugnante ser, que nada tem de humano.

12 de agosto de 2010

Breves instantes

Às vezes não sei o que te dizer. Porque, às vezes, duvido de tudo, questiono tudo o que me rodeia e sinto medo. Às vezes não sei encontrar as palavras para te ler. Não sei ver nos teus olhos aquilo que quero acreditar que sentes. Há momentos em que os sinais se misturam e nada do se move à minha volta se encaixa. Tudo se mistura numa sinfonia sem maestro. E por breves instantes nada do que represento sou eu, nada do que respiro é meu.

Por breves instantes, respirar é involuntariamente voluntário e o sal do corpo é difícil de guardar. Por momentos, nada faz sentido e tudo grita... e o teu silêncio grita ainda mais, até que a música dos dias se consome num latejar compassado e mudo, como se pedisse desculpa por não poder parar e suspirar de alívio. Por breves instantes tudo se mistura e nada encontra o seu lugar. Nesses instantes, pega-me na mão e aperta-a até que o universo fique completo outra vez.

5 de julho de 2010

Em silêncio, viver a cantar.

Um dia disseram-me: os pássaros que não cantam podem voar mais alto. Vivem o silêncio na concentração de chegar mais longe e não perdem o rumo. Mas os pássaros sem voz são aqueles que eu vejo descansar nos ramos mais escondidos das árvores. São os que se aninham nas sombras na expectativa de um raio de sol que os inspire. Para mim, esses são os pássaros que ainda não sabem o que é a inspiração. Não sabem que têm voz e que as melodias desenhadas no vento tornam os dias mais intensos. Estão perdidos entre os fins-de-tarde que se esquivam dos dias e aqueles que descansam nas horas que abrem as portas à noite. Estão esquecidos nas folhas que caem das árvores a cada amanhecer, ficam em silêncio sem saber como cantar. Para mim, esses pássaros voam alto mas não respiram fundo, não sorvem o ar mais puro porque não conhecem a alegria das melodias que podem entoar.

Mas acredito que, um dia, também eles vão aprender a cantar.

23 de junho de 2010

Hoje não me bastam meias-palavras

Há dias que não pedem licença. Vão entrando lentamente no nosso futuro e encaixam-se na bainha das semanas, onde ninguém se lembra de procurar. Há dias que, de tão pouco dias que são, são quase uma afronta ao ritmado e infalível calendário.
Há dias em que as palavras se esquecem de ser palavras e os olhares deixam de ter significado. Nesses dias, os gestos não bastam, os planos não servem como alicerces para construir o amanhã e as meias-palavras são só uma desculpa para fugir de tudo o que nos assusta.  São desabafos por terminar, ataques mal desenhados que se reescrevem em repetição contínua e que nunca conseguem chegar ao fim. E hoje não me bastam meias-palavras.

31 de maio de 2010

mergulhar

Fugir. Esconder-me de tudo. Fechar os olhos e sentir o conforto do silêncio. Mergulhar no azul e sentir a calma que me ocupa, que não deixa espaço para mais nada. Nem uma nódoa, nem uma dor, nenhuma dúvida. Esquecer os farrapos de areia molhada na pedra gasta do tempo. Esquecer as noites de trovoada, os fins de tarde cinzentos que molham as janelas e todas as manhãs que custam a começar... Respirar fundo e mergulhar de olhos abertos, sem medo de me afogar.

10 de maio de 2010

Balanço

Lento, compassado. O corpo esquecido num berço de madeira sem protecções. As ondas de dor abraçam-na suavemente e o vento lava-lhe as lágrimas que não quer deixar cair. Os dedos apertados na corda grosseira dão-lhe a segurança insegura de quem raramente tem a certeza mas nunca pensa em duvidar. Os pés cruzados amarram a vontade de fugir e o balanço continua. Insistente, regular, constante. Como se fosse durar para sempre...

30 de abril de 2010

Começar outra vez

Sem recomeçar. Dar os primeiros passos como se nunca os tivesse dado. Escolher descuidadamente o caminho sem pensar nos quilómetros a percorrer. Respirar fundo sem o peso das responsabilidades e começar outra vez. Como se nada fosse. Como se o mundo só ficasse completo com um sorriso. Como se fossem os meus dedos a desenhar as ondas do mar. Começar outra vez. Sem hesitar, como da primeira vez.

27 de abril de 2010

Enche-me a casa de balões

Faz-me uma surpresa pouco surpresa que me deixe sorridente. Faz desenhos nos balões e deixa-os espalhados pela casa. Escreve o que quiseres em cada um deles e não sejas tímido com as cores, todas elas combinam comigo. Prometo que vou ter cuidado para não rebentar nenhum e quando perderem lentamente o ar, vou guardá-los. Sabes que adoro ver como ficam pequeninos os desenhos e como ficam perfeitas, naquele tamanho, as letras que escreveste em capitulares no balão cheio.

22 de abril de 2010

Girassol

O calor avultava o cheiro a bolachas de canela. No ar quente, o aroma característico de uma noite de verão. E as bolachas acabadas de fazer, ainda a fumegar, em cima da mesa do jardim.


Para ela tudo tem um cheiro característico, mesmo o girassol confuso do jardim, que nunca persegue a luz do sol. Acha que é por causa do orvalho que a manhã cheira a fresco e a comida acabada de fazer. Para ela é tudo tão óbvio. E quando lhe vejo um sorriso acidental apertado entre os lábios, sei que naquele momento ela está feliz. 


Lembro-me de ter tirado uma fotografia ao girassol do tamanho de um prato, que cresceu à toa de uma semente que o papagaio deixou cair. Ela sempre gostou daquela flor. Era confusa, como ela. Era gigante e estava sozinha num ambiente que nunca se preparou para a receber. Era uma lutadora e tornava o verão mais alegre. Era amarela, tinha um sorriso em cada pétala e resistia. Era isso que a tornava especial.

13 de abril de 2010

Happy XL

A música é serena. O ar cálido abraça o fim-do-dia como se não quisesse receber a noite. Num terceiro degrau de uma qualquer escada, ele fita os ténis sujos, destruídos, vividos. Relembra os sorrisos XL que via na cara de todos os amigos e que também ele ostentava, apertado entre as bochechas.
Tem uma vontade imensa de recuperar os momentos espontâneos, pintados a gargalhadas, emoldurados com abraços. Deixa a música dançar noutro ritmo e levanta-se demoradamente. Olha em frente e vê uma expressão que reconhece, um sorriso que sabe desenhar com os dedos... XL, vindo de outros Verões.

6 de abril de 2010

Escrevia

Pegou na caneta e desenhou as letras no papel. Com receio, misturou a tinta escura com a cor seca do caderno. Sem querer, despejou as palavras que ainda não sabia estarem escondidas atrás da pele... naquele lugar onde se guardam os medos. Desenhou cada letra com cuidado, com a delicadeza de quem sabe por onde começar. Mas tinha a certeza de que não sabia. As letras juntavam-se intuitivamente, como se cada uma delas só fizesse sentido rodeada de outras formas e sons. Tentava, a cada frase, desfazer-se da culpa difusa que lhe pendia nos nós dos dedos. Não sabia de onde vinha, não conhecia a sua origem, nem sabia definir a sua génese. Sentia-a, gelada, a consumir-lhe a pele e a guiar-lhe as mãos pelos recantos do dia.
E os dias foram passando, a languidez das horas a pesar-lhe nos seus dedos e a urgência de escrever a marcar o ritmo. Apesar dela, o mundo continuava, o tempo corria atrás de tudo o que nunca voltaria. E ela, sentada num qualquer vão de escada, esquecia as curvas apertadas do caminho e escrevia. Não sabia bem porquê, nem sobre quê, mas... escrevia. Até que um dia levantou a caneta do papel e já não sabia quem era.

21 de outubro de 2009

Estou em obras

à procura de um novo template... e de novas ondas (leia-se tempo) de inspiração!

19 de agosto de 2009

caminhar

As frases, que tantas vezes reescrevi em surdina na minha mente, soltas nas tuas mãos: distraidamente penduradas nos teus dedos frios.
Fecho os olhos e obrigo-me a sentir os pés firmes no chão, aperto os lábios na certeza de amordaçar as palavras e respiro fundo. Dás-me a mão e acompanho o teu movimento, com a leve esperança de sentir o mundo dentro de mim. Balanças o corpo num andar despreocupado e sorris entre suspiros, pergunto-me se isso significará que estás feliz. Procuro o teu olhar, mas há tanto ainda para ver, tanto que os meus olhos querem absorver...
Tu, de olhos fixos no horizonte, espalhas os teus sonhos pelo caminho que ainda percorro contigo, e olhas para longe. Tão longe, que não me vês mergulhar de mansinho na paisagem e desaparecer entre o sol e a noite. Eu, guardo um sorriso para ti e vou.

8 de julho de 2009

Sentado no muro de pedra, esforçava-se por equilibrar confortavelmente nas suas pernas a cabeça de alguém que o fazia feliz. Ela sorriu e ali, entre o fim de um dia e o início de outro, perguntou-lhe despreocupadamente:

- Alguma vez viste o Sol nascer?

- Não, mas o que tem de especial?

- Como assim? É mágico!

- Oh, por favor! É esperar, cheio de sono, que alguma coisa aconteça para depois perceber que já aconteceu!

- Ver o Sol nascer é muito mais do que isso. Não te rias. É mágico, a sério. Se for depois de uma noite de festa é sentires o cansaço em proporção à felicidade, é ansiares pelo conforto da tua cama, sabendo que te divertiste. Se for a manhã de horas e horas à conversa é acomodares a rouquidão na conversa e o sorriso nos lábios...

- Sim, sim. Isso é tudo muito giro, mas e se for depois de uma noite de discussão ou depois de uma má notícia?

- Se te sentires sozinho, desorientado... se for naquelas alturas em que nada parece fazer sentido e tudo te magoa... aí, o nascer do Sol é a prova de que é possível começar de novo!

24 de junho de 2009

Esconde os olhos, inclina o pescoço. Mexe, nervosa, no cabelo e pensa que há assuntos que são como as árvores mais resistentes, se não forem cortados pela raiz nunca mais deixam de nos perseguir. Durante o dia, a mente fervilhou entre memórias e fantasias, não foi capaz de controlar o seu pensamento.
E, no regresso a casa, caminhou pela rua, pelo parque, tem a sensação de ter andado pela cidade inteira. Não viu nada, não viu ninguém, deixou que os seus passos a guiassem para um lugar estranho. Um lugar que ela é obrigada a conhecer a cada fim de tarde, quando o dia atira os seus restos para o caminho e força a noite a dar os primeiros passos.
Agora na quietude da sua sala sente-se afastada do mundo, não, afastada não: escondida. Tem a aparelhagem no volume máximo, a música quase lhe fere os ouvidos, mas aguenta. Porque, assim, consegue manter todos os pensamentos afastados da mente.

4 de junho de 2009

Escrever-te

As letras misturam-se e as frases que construo levam-me a ti. Finjo que é falta de inspiração e rasgo as folhas que escrevi, mas a cada recomeço encontro o teu sorriso e não sei como apagá-lo da mente. Apetece-me esquecer tudo, limpar as horas e voltar à página em branco para que, de uma forma menos inocente, eu consiga contornar tudo o que me fez chorar.
E a verdade é que as linhas que traçamos no chão nem sempre se mantêm firmes, rectas e intransponíveis. Os dias forçam-nos a escolher as palavras, a olhar o chão que tencionamos pisar antes de o fazer, a provar antes de comer. E é tudo tão simples que chega a tornar-se complexo: uma borboleta não é só uma borboleta, mas é a forma como olhamos que a transforma em muito mais do que isso. Tudo à nossa volta se ajusta ao nosso olhar e, quase sem saber, fazemos da vontade de viver uma desculpa para vergar o quotidiano aos passos que damos.
Mas, para já, quero que as palavras me obedeçam. Preciso que as minhas palavras deixem de ser tuas e voltem a submeter-se a mim. Quero que o escrever, sobretudo o escrever-me, não seja escrever-te.

25 de maio de 2009

À deriva

Sentimos tantas vezes que perdemos o pé, que estamos a nadar contra a corrente, à deriva. E à medida que nos esforçamos por manter o calor no corpo, esquecemo-nos de procurar o pulso. Tudo gira à nossa volta e, na necessidade de acompanhar o movimento, perdemos o ritmo que nos acelera o coração.
E de repente o esforço que fazemos para tentar respirar deixa-nos exaustos, de repente tudo o que nos parecia certo deixa de o ser e sobramos nós... verdadeiramente sós.

8 de maio de 2009


Os beijos roubados têm muito mais sabor...

...há quanto tempo não me roubas um beijo?

6 de maio de 2009

Inquietude

Irrequieta, muda de posição a cada segundo que passa. As mãos vazias, tão cheias de nada. Olha em frente e sente o tempo escorrer-lhe nos dedos como se os dias se atropelassem nas horas. Tudo fervilha, as luzes são intensas e brilhantes e o movimento perpétuo. A respiração entrecortada de quem não consegue controlar as batidas do coração, nervos, ansiedade, tudo o que se esconde nas reacções físicas. Sente a transpiração nas palmas das mãos e apressa-se a limpá-la nas calças de ganga, cruza as pernas e volta a bater o pé ritmadamente. Não sabe ao certo o que a incomoda, mas sabe que não pode ficar assim durante mais tempo.

Pára. Respira fundo e tenta acalmar-se por entre o desespero de não perceber a razão de tanta agitação e os olhares agitados que a atacam. Nunca foi assim, as pessoas não a assustavam. O que mudou?

27 de abril de 2009

24 de abril de 2009

Momentos

Há momentos mágicos. Pequenos instantes que nos aceleram o coração e nos plantam um sorriso insistente nos lábios...
Fazemos tudo para os guardar, gravar na mente aquela gargalhada e aquelas palavras que nos fizeram felizes. Uma fotografia, um olhar, um toque ou um bilhete despreocupado. Tudo o que nos faz sonhar. Efémeros e esquivos, são esses momentos que constroem, aos poucos, cada um de nós.

13 de abril de 2009

Novelo

O fio fugiu-lhe da mão, entre os dedos ficaram as fibras soltas de um novelo colorido. Em cada cor, um sonho, em cada centímetro, uma esperança inocente. Os dias foram passando e nas mãos havia a segurança de um caminho planeado, na mente as expectativas ingénuas de quem desconhece a natureza do que vê e, nos olhos, a vontade de seguir em frente. Não percebe porque tem os dedos frios, as mãos abertas e vazias, o corpo cansado e os olhos cheios de água. Não percebe o que aconteceu porque não o tinha planeado, não entende como é que o fio se escapou por entre os dedos. Não aceita que o fio fugiu porque o novelo chegou ao fim...

12 de março de 2009

Desassossego

Subitamente paras. Sustens a respiração e tentas ouvir o silêncio, nada. Já não sabes o que te trouxe até aqui, mas sentes um enorme alívio na calma que te rodeia.
E ainda assim, não sabes como rotular o facto de teres o coração em alvoroço. Tens latente na pele um constante mutismo de palavras hostis, que te ecoam na mente e roubam a quietude que se abateu sobre ti.
Sentes que estiveste a correr durante demasiado tempo e agora paras e não tens posição, simplesmente não te lembras como é ter a respiração singela de quem não se esforça por continuar em movimento. É como ter as pontas dos pés suspensas num abismo, um desconforto seguro, uma inércia espartilhada pela integridade que te obrigas a preservar... uma insegurança que te faz questionar o momento seguinte.

20 de fevereiro de 2009

Um dia

Há um dia em que te apercebes que precisas de ir mais longe, saber que chegas lá.
Mas o mundo nega-te a viagem e tu continuas a lutar contra os obstáculos que vêm na tua direcção, não te mexes. Esperas. Respiras Fundo. Escondes as lágrimas na garganta e negas a inércia que te move.
A leve sucessão dos dias impressiona-te e esmaga-te contra uma realidade que não queres aceitar, mas há um dia em que tentas. Esqueces as frustrações e recusas tudo o que em tempos te desiludiu, tentas e acreditas que vais conseguir. Esticas a mão e ficas surpreendido com o alcance do teu braço.

22 de janeiro de 2009

Longe

Hoje esperei por uma palavra tua. Sentei-me na calçada e chorei no teu silêncio. As minhas palavras pareciam incompletas antes das tuas e tu deixaste-me a metade. Sorriste ao longe, esperaste um sorriso meu. Falaste até, uma daquelas frases serenas e inocentes que nunca têm significado. Hoje o teu toque estava frio e o meu corpo gelou. O som da tua voz arrepiou-me a pele e o teu perfume não me soube encontrar. Estavas tão longe.

30 de dezembro de 2008

Clack!

Um olhar intrigado, algum espanto e desenvoltura na pergunta:
- Porque é que fechaste a porta?

Um sorriso óbvio e saboroso:
- Porque vou abrir todas as janelas!

23 de novembro de 2008

De olhos fechados sente o vento frio na cara. O sol abandona-se suavemente ao fim do dia e pousa no horizonte. Os dias são uma sucessão de desejos e vontades, guerras e batalhas que nem sempre podemos vencer. E, nos intervalos da rotina, há pormenores que enchem as horas de cor e o peito de ar puro.
Por vezes os sorrisos são mais do que feições: são frases ditas em silêncio, palavras diluídas em olhares cúmplices. Por vezes, os dias passam com a leveza dos segundos e a naturalidade do movimento das marés. E ela gosta de se sentar numa pedra e fechar os olhos, sentir o vento e respirar fundo. Gosta de saber que há um lugar em que pode descansar a mente e simplesmente apreciar o pôr-do-sol...

6 de novembro de 2008

Desmoronamento

Um dia algo acontece. Não o prevíamos nem o queríamos, mas acontece. E tudo muda, para o bem e para o mal. Sem sabermos, encaixamos numa sequência que não foi projectada por nós e tudo parece estar fora de controlo. Desmoronam palavras, pedras, portas e paredes. Os alicerces, que um dia foram o nosso porto seguro, caíram inertes no chão.
E aí, nesse lugar vazio do desmoronamento, forçamos os pulmões e respiramos fundo... continuamos.


Também aqui.

15 de outubro de 2008

Com a lua…

Era já noite de um dia qualquer. Era já noite de uma semana sem te ver.

A lua altiva e orgulhosa encheu-se de brilho e brio para me encantar. Deixou-me os olhos a brilhar, as mãos nervosas e os lábios trémulos. E sem me aperceber soube que estava apaixonada, pela sua forma suave, pela sua luz sumptuosa.

E agora diz-me, como podes tu ignorar a lua e quereres-me a mim. Como podes desconhecer o seu brilho que dá luz às noites: a todas as noites.

São pequenas infâmias as palavras que atiras em perguntas levianas sobre a lua. São amenas dores que me provocas, apertos no peito, agulhas na alma, quando dizes que não encontras a lua e que nem sequer a procuraste.

Revoltas-te, argumentas que não tens tempo, estás cansado. Mas será o cansaço maior do que o espaço que o teu pensamento guardou para mim?

E beijaste-me, precipitadamente, de forma descuidada. Distraído e preso a outras cordas, mais brilhantes do que os meus abraços. Apertaste-me e eu fugi. Corri para onde os teus dedos não me pudessem alcançar: nessa noite percebeste que tinhas de me dividir com a lua.

22 de setembro de 2008

Não molhes o silêncio.

As lágrimas que te caem das pestanas incomodam aqdor que o meu silêncio provoca. Deixa-me ser este forte de pedra que não deixa entrar ameaças, que protege alguma coisa de pouca importância.
Não me importa ter os teus dedos apertados à volta dos meus pulsos, quero ser isto, deixa-me ser isto. E por favor não chores, não murmures lamentos entre soluços, não implores. Não quero olhar para ti. Quero ficar assim, aninhado neste forte, mesmo sabendo que aquilo que protejo é uma rocha e não uma pérola.
E por favor, não molhes o silêncio, este silêncio que me dá serenidade e conforto, este silêncio no qual tu nunca soubeste como existir. És barulhenta e as tuas lágrimas são trovões que se despenham em mim, são sirenes de insuportável volume que me ferem os ouvidos.
Por favor, se queres ficar em mim fica em silêncio.

11 de setembro de 2008

Cruzas os dedos com força enquanto mordes o lábio. Sei que desejas que tudo corra bem e também sei que tens medo que tudo corra mal. E tu sabes que eu acredito em ti. Ontem, quando te disse que ia estar sempre aqui para ti, não te menti. Mas quero que acredites em ti mesma. Quero lavar-te dessa insegurança que te faz tremer as mãos e a voz. Porque tu sabes que vou absorver cada lágrima que fizeres deslizar no teu rosto e vou beber da tua dor como se fosse minha.
Agora dá-me a mão, o silêncio não chega para que percebas que estou aqui, que sou real. Nunca te deste bem com a ausência de voz, o vazio das palavras. Nunca gostaste que eu as guardasse só para mim. Sempre achaste que as palavras são como presentes, que não se guardam, oferecem-se. E tu sabes que eu guardo cada presente teu, escuto cada palavra desenhada pela tua voz, porque tenho medo do teu silêncio. Na tua boca o silêncio é tristeza, os momentos em que emudeces a voz são punhais cravados no meu coração. E as tuas feridas são minhas também, sangro os mesmos rasgões abertos pelas lâminas que escondes.
Anda cá, deixa-me sussurrar-te ao ouvido. "Vai correr tudo bem. Eu estou aqui."

21 de agosto de 2008

A manhã acordou cinza. Escura e fria, com a expressão de quem acorda aborrecido e tem dificuldade em abrir os olhos. O sol estava preguiçoso, reticente em assumir a posição dominante a que nos habituou.
E mesmo assim o dia prosseguiu, altivo, sem esperar por ninguém, com a solidez de quem repete os mesmos passos mais vezes do que queria. As horas foram arrastadas, contrariadas num saltitar sereno e audaz. E numa orquestração coordenada, a semana foi desenrolando as suas notas sem parar.
Os sorrisos habituais, as palavras necessárias ao silêncio, todos os elementos foram assumindo o seu lugar sem perguntar porquê. E no fim de cada dança, com os acordes mais calmos, o sol pousa a cabeça no mar e o corpo no horizonte e adormece. Sem saber que a lua chega para lhe velar o sono.

21 de julho de 2008

(ilustração Zeca Cintra)

Debruçada nas grades da varanda, cantarola uma música que a avó lhe ensinou. O vestido colorido esvoaça-lhe nos joelhos massacrados pelas quedas de criança. Mandam-na sair dali mas ela mantém-se imóvel, doce rebeldia de quem recebe mimos a toda a hora.
Sorri enquanto observa dois cães a perseguirem-se pela rua. O suave balanço das horas não a incomoda, o lento girar da terra não a distrai. O mundo dela é perfeito, pleno de sol, bolos, animais e canções. A felicidade que transborda do seu sorriso é quase tangível.
Na sua inocência imaculada não sabe que um dia vai olhar para trás e ver que o tempo passa quando estamos desatentos. Que a vida se desfaz em gargalhadas e abraços, em lágrimas e palavras. Que os dias são nossos com a certeza do seu fim.

2 de julho de 2008

O silêncio arranja forma de transmitir o que queremos esconder. Resgata tudo o que não sabemos como falar ou escrever, salva as palavras que insistimos em esquecer. E em serena aquietação esperamos que ninguém perceba o que enfeitamos em sorrisos para não nos desfazermos de nós.
E dos olhares fugidios fica tanto por dizer, segredos que em surdina não soubemos como guardar. O compasso do coração é a batida da alma, que expõe o que não conseguimos verbalizar. O novelo de pensamentos é o desenho de quem aprendeu a guardar as palavras e agora não sabe como usá-las.
Vamos preenchendo os dias numa cortina opaca, cor de pastel. Numa angústia omnipresente que nos ata os tornozelos e os pulsos a uma árvore seca e morta, vamos esperando que o vento nos solte, que o sol corroa as cordas e nos devolva a liberdade. Mas enquanto houver lábios a morder as palavras por medo, não haverá espaço para voar.

18 de junho de 2008

Hoje quero reescrever todas as palavras. Reaprender todas as letras e voltar a espalhá-las no chão da minha mente. Esquecer todas as frases e refazer todos os parágrafos, como se fosse a primeira vez.
Hoje quero misturar os significados e esconder os sinónimos. Escolher cinco palavras e virá-las do avesso, pegar em mais três e mudar-lhes os acentos. Quero brincar, usar o que escrevi e o que pensei...esquecer o que nunca quis escrever e deixá-lo escorrer-me pelos dedos até ao papel. Sem que eu me aperceba.
Porque às vezes não sou eu que mando nas palavras, são elas que me conduzem por labirintos inexplorados e me deixam esquecida no silêncio do que sinto. E elas vêm assim, em catadupa, cheias de significado e jogos maliciosos na sua conjugação. Eu deixo-me levar sem sussurrar um queixume que seja, é rodeada de palavras que sou feliz.
Mas hoje quero desconstruir tudo que elas me trazem, refazer todos os textos e esconder todas as frases que me mostram como sou. Porque nem sempre sei como falar de mim, porque nem sempre sei procurar as palavras certas.

27 de maio de 2008

Piano

Por um momento sentiu-se sufocada. Fugiu a passos nervosos para a rua, sentou-se na varanda, no precipício do arranha-céus. Perdida nos seus pensamentos, não sentia o frio a morder-lhe as faces. Algumas gotas começaram a cair e ela nem reparou, ouvia com atenção um som próximo e suave. Piano.
As teclas gemiam e rasgavam a noite, sustinham a correria da cidade por um instante. Tudo parecia silencioso, as estrelas bebiam sedentas daquela alma desfeita em notas musicais e ela permanecia imóvel, de olhos fechados e o coração escancarado. A melodia dançava no vento, preenchia o ar como um aroma agradável que não se quer esquecer.
Sentiu uma gota fria cair-lhe no joelho, mas não se inquietou. Muitas outras caíram sobre o fim do dia e ela não foi capaz de ser levantar, não enquanto aquele piano tocasse. As notas eram carícias, como doces palavras que se dizem em noites de luar e a noite chegava, embalada pelos acordes certeiros e sofridos.
Quem estaria a tocar? Não sabia, mas tinha a certeza de que permaneceria ali até o silêncio chegar. Imaginou serenamente as mãos de alguém a dançarem nas teclas neutras de um piano de cauda, o coração acelerado de quem tocava ao ver que o piano traduzia sentimentos...quase foi capaz de sentir a sua respiração ritmar a harmonia da música.
E o piano cessou, passados segundos, minutos, horas...talvez dias. E ela sentia a pele gelada e molhada, mas a alma quente e sossegada.

16 de maio de 2008

Mais um passo, um avanço. Levamos nos bolsos as juras de mais sorrisos, as promessas de abraços futuros. Guardamos nos olhos o brilho daqueles que nos fizeram felizes nestes três anos.
E as memórias abrigam os momentos marcantes,:tristes ou alegres, aflitivos ou descontraídos. Cada segundo foi parte de uma vida que partilhámos, uma vida que partilharemos para sempre por muito afastadas que estejam as nossas mãos.
E agora...carregamos nos ombros as certezas do que aprendemos, as dúvidas do que virá. E com a voz embargada e a garganta apertada mostramos com orgulho os sentimentos, as pessoas que nos mudaram, que nos fizeram crescer. O tempo escorre-nos pelos dedos a cada pôr-do-sol desta cidade, a cada meia-noite cantada em serenata sabemos não poder voltar atrás. Angustia-se o coração e os pulmões encolhem-se no peito. Capas negras de saudade, dizem. S-a-u-d-a-d-e. Sim, capas que nos aquecem os ombros e disfarçam as lágrimas que caem. Capas que são portas para outras vidas, outras emoções. Capas que nos protegem e resguardam nas frias noites em que nos faltam partes da alma.
Estendo a minha capa a vocês, à partilha de sorrisos, às mãos dadas no meio do choro, aos abraços apertados e às palavras especiais...a Lisboa, uma cidade que soube amar por vocês, com vocês. Tudo isto aprendi convosco...tudo isto é muito mais do que eu posso dizer. Muito mais do que poderei agradecer, por isso deixo que os meus olhos o façam por mim.


Vou sentir falta de tudo: das gargalhadas nos corredores, das conversas longas nas escadas, do jogo da forca, das parvoíces, das tardes nos bancos de madeira, das tardes na Gulbenkian, dos passeios, das brincadeiras, dos risos de todos e de cada um. Mas acima de tudo dos vossos sorrisos à minha volta....


E todos sabemos que as fotografias nunca apanham TODA a gente, não quer dizer que não estejam no nosso coração.