26 de dezembro de 2006

As Palavras

Às vezes as palavras ficam perdidas no fundo de um olhar, penduradas num sorriso ou outro. E quando damos por elas estão a descansar nalguma escada solarenga da nossa alma. Deixam-se ficar a ver o pôr-do-sol e a pedir-lhe baixinho para se demorar mais desta vez. E há manhãs em que saltitam no sorriso do sol, irrequietas e felizes, em que salpicam os dias de magia. Mas também há dias em que a noite é o único consolo e as palavras se escondem atrás de portas trancadas pelo tempo, se reduzem a feixes de luz esquecidos no amanhecer, a reflexos do céu nas águas paradas.
São horas em que as palavras se entristecem e pintam as frases a negro, escondem segredos. Falam baixinho, sussurram até, têm medo de fazer sangrar as feridas e rasgar de novo a pele. Tão fortes e tão frágeis.
Esquecem-nas tantas vezes nos parapeitos das janelas, nas ombreiras das portas cerradas de madeira roída e antiga. E elas permanecem como se tivessem nascido ali, nalgum canto que o sol esqueceu, no abrigo da chuva. Usamo-las com tanto desprezo que o gelo não é capaz de as abraçar e as gotas de chuva quente não chegam para as consolar. É por isso que às vezes, mas só às vezes, fogem de nós…

19 de dezembro de 2006

Meu anjo caído.

Sabe tão bem ficar a olhar para ela, sentada no sofá ao meu lado. Os lábios descansados pousados um no outro, tão leves, o seu olhar preso à televisão e as suas mãos frias abandonadas ao acaso no corpo. É tão linda que nem consigo expressar o que sinto por palavras e às vezes tenho tanta vontade de gritar que amo tudo o que nos une…
Gosto tanto de apertar os teus ombros nos meus braços, sinto que te posso proteger…sei que não passa de ilusão, mas quero acreditar que nunca ninguém te vai magoar porque eu não deixo, que as tuas mãos nunca mais vão voltar a estar frias porque terás sempre o meu calor para te aquecer. Sei que não posso ser esse herói que tanto quero para ti e tu sentes que o meu coração é nobre, o teu sorriso acalenta a força que o meu amor por ti me dá…Adoro quando sorris assim para mim, espontaneamente, sem razão, só porque eu estou ali ao pé de ti. Se pudesse congelava esses momentos e guardava-os para quando não posso olhar para esses teus olhos negros tão profundos. E gosto tanto quando os teus olhos me dizem que queres tomar conta de mim, que queres ser para sempre minha, o meu anjo. A tua pele inebria-me os sentidos, é tão suave. Às vezes tenho medo que não sejas real, és tão perfeita,mas tão triste. E custa-me olhar para os teus olhos e não poder destrinçar o que os faz tão escuros, tão magoados. Tens umas mãos tão frágeis e uma pele tão imaculada que às vezes tenho medo de te tocar…mas tu entregas-te aos meus cuidados sem medos, é essa confiança que tu tens em mim que me fascina e apaixona.
Acho que alguém perdeu um anjo durante a caminhada…Juro que às vezes até consigo ver as asas de puro branco desenharem-se nas costas delicadas.

12 de dezembro de 2006

Não.

As letras rectas, desenhadas sem o mais pequeno cuidado, brutas, riscadas com raiva, os traços desalinhados, despreocupados, cruéis.
Não seguem um padrão, diferem no tamanho, na forma, na rigidez. Mesmo as letras de contornos mais suaves não exibem a doçura que lhes seria característica, em vez disso há traços nervosos a ferir o papel. Traços que mostram muros construídos atrás das palavras, protecções com espinhos, paredes de medo erguidas com destreza atrás destes riscos soltos por um lápis de carvão enraivecido.
As palavras gritam o que querem dizer e gritam também tudo o que querem esconder, as letras interceptam-se acutilantemente, foram escritas com a crueldade na ponta dos dedos e nos olhos de quem as desenhou. É como se as palavras sucumbissem ao mal...escorrem fel.
E o carvão começa a desaparecer...mas as marcas de um coração aberto continuam lá...
Lê-se “Não quero. Não!” e há duas letras que medeiam a primeira frase, escritas timidamente em jeito de segredo envergonhado mas igualmente cruel: “te”.

25 de novembro de 2006

O corpo esticado ao longo do colchão, um braço a pender do lado direito, o olhar fixo no lençol. Lá fora a chuva cai ritmada, insistente...o sol já não espreita tímido pela janela, cansado de tanto brilhar. As tuas palavras ecoam-lhe nos pulmões, na cabeça, latejam-lhe nas mãos. Os pensamentos escorrem da mente para o coração e do coração para a pele que queima com a força de uma tempestade no mar.
O teu olhar destrói as palavras, desfaz tudo o que acompanha. Deixas um rasto de fogo e cinzas nas pessoas que amas, quem entra no teu coração só consegue sair de lá amachucado. Há quem te diga que tens o coração sobrelotado e que as pessoas se espezinham lá dentro...tu ris e nunca pensas em acreditar.
Fecha os olhos, não tem forças para chorar, as costas desprotegidas parecem mais fortes que nunca mas por dentro só deixaste folhas amarrotadas, cartas que escrevias ao som de dois corações a bater em uníssono e que nunca foste capaz de acabar. Os pés gelados começam a incomodar o corpo estático, tornaste-te tão físico e não passaste duma brisa agradável mas com a capacidade de deixar alguém de cama. O pescoço começa a doer. Vira a cabeça para o outro lado e involuntariamente vê uma fotografia tua, fecha os olhos e pela primeira vez obriga-se a respirar...Desaparece...” murmura, desejando exactamente o contrário.

6 de novembro de 2006

E a estrela caíu...


Olhava para a estrela e pedia com força que lhe roubasse a vida. Fixava-a como que a pedir-lhe que descesse e o matasse.
Desistiu...Todo o ódio que tinha naquele olhar desaparecera com um sorriso.
- Vou pedir outro desejo, algo agradável...
E com o mesmo sorriso desejou que todo o ódio, toda a dor e sofrimento que o pudesse atingir se transformasse posteriormente em amor e alegria. Fechou os lábios mas não deixou de sorrir. E a estrela caiu...E chorou por pensar que nem os seus desejos conseguiam durar.
Beatriz subiu as escadas e sentou-se ao seu lado. Perguntou-lhe porque chorava, ele respondeu que a estrela que continha o seu desejo tinha caído, ela sorriu aliviada e o pequeno rapaz, chateado, perguntou-lhe porque ria se a situação era tão triste. Ela respondeu calmamente e explicou que a estrela que caíra não morrera, antes pelo contrário, depois de saber que guardava um desejo dele, viera alojar-se no coraçãozinho magoado do Rodrigo.
E, confuso, o Rodrigo agarrou-se a esse pensamento. Embora não percebesse muito bem o que a sua irmã queria dizer com aquilo. Pôs a mão sobre o peito e sentiu o coração bater, susteve a respiração e procurou o coração brilhante da estrelinha no silêncio da noite. Porém, não o sentiu, nem o ouviu. Indignado perguntou à irmã porque não sentia o coração da estrela, Beatriz pensou na sua mãe e na explicação que lhe tinha sido dada quando também ela não conseguira encontrar um outro coração dentro dela. Sentiu as lágrimas procurarem-lhe os olhos. Fechou-os.
Explicou ao Rodrigo que a estrela se fundira com ele e que o seu coração, agora, servia para os dois.
- Mas se a estrela está dentro de mim, como é que pode realizar o meu desejo?
- Ela não o vai fazer sozinha, vai ajudar-te a fazê-lo. Tu é que o vais realizar, ela só te dar força suficiente para não desistires.
Rodrigo ficou resignado com a resposta. Um sentimento que conhecera após a morte da sua mãe. Mas com a estrela dentro de si não se chateia por se resignar.
Pensou então em guardar mais estrelas dentro de si, mas achou que era cruel roubar as estrelas do céu.


(escrito já em 2003)

31 de outubro de 2006


Ele entrou no mesmo metro que ela e ela saiu na mesma estação que ele. Ele virou à esquerda e ela virou também. Ele saiu, voltou a virar à esquerda e ela foi atrás porque também era por ali o seu caminho, depois ela virou à direita e subiu a rua e ele caminhava ao seu lado.

«Ela também vem por aqui?»
«Ele vai virar ali não vai?»

E ambos seguiam lado a lado sem mais ninguém na rua.

«Este silêncio...ela até é gira.»
«Ele podia dizer-me "olá", tropeçar, pedir uma informação estúpida..sei lá.. e ainda não lhe consegui ver bem a cara, mas parece-me bem.»

Passaram por um rapaz que segurava um cão pela trela à porta de casa e dizia ao telémovel que estava sentado a ver televisão.

«E agora será que ela mora aqui?»

Ela suspirou.

«Coitada parece tera mochila pesada, se calhar devia perguntar se quer ajuda»
«Ele podia perfeitamente perguntar-me as horas!»
«Ela não tem relógio no pulso...seria estúpido perguntar-lhe as horas!»

Viram em uníssono na mesma esquina e ambos se precipitam para a passadeira.

«E agora para onde é que ela vai..?»
«Acho que ele vai continuar...paciência, pode ser que nos voltemos a encontrar p' ra semana!»

Ela vira à direita resignada e ele tem vontade de ir atrás dela mas não o faz.

«Ela nem olhou para trás...»

14 de outubro de 2006


Gostavas de fazer tudo ao mesmo tempo, era por isso que te sentias tantas vezes confusa. Querias tudo, todos, não gostavas de opções. Sentias-te capaz de abraçar o mundo, mas quando te davas conta do modesto tamanho do teu abraço, fugias da vida como quem foge da chuva. Mas a vontade que tinhas não serenava e voltavas a cometer os mesmos erros.


Acho que nunca te apercebeste da quantidade de gente que deixavas caída no passeio do teu caminho.


Tinhas tanto para dar e tão pouco para receber. Um dia, um fim de tarde estival, vieste chorar no meu colo, penduraste-te de tal maneira ao meu pescoço que eu achei que ficarias ali para sempre…mas não ficaste, havia tanto à tua espera e tão pouco tempo! Limpaste as lágrimas, olhaste-me nos olhos e disseste: obrigado e desculpa.


E fugiste.


E de cada vez que eu te servia de porto de abrigo tinha a esperança de que um dia não largasses o meu pescoço. Mas nunca ficaste…

7 de outubro de 2006

*"Eat dessert first, Life is uncertain"*

I am unwritten, can't read my mind, I'm undefined
I'm just beginning, the pen's in my hand, ending
unplanned
.
Staring at the blank page before you
Open up the dirty window
Let the sun illuminate the words that you could not find
.
Reaching for something in the distance
So close you can almost taste it
Release your innovations
Feel the rain on your skin
No one else can feel it for you
Only you can let it inNo one else, no one else
Can speak the words on your lips
Drench yourself in words unspoken
Live your life with arms wide open
Today is where your book begins
The rest is still unwritten
.
"Unwritten" - Natacha Bedingfield
.
A todos muito OBRIGADO pelos bons momentos!

28 de setembro de 2006


Tu querias caber na minha mão. Querias que eu te protegesse que eu te resguardasse de todos os males…Oh minha pequenina, tu não cabias na minha mão porque tinha sempre as mãos ocupadas. E refilavas, dizias que os meus pacientes cabiam nas minhas mãos, ao que eu respondia que tu não cabias na minha mão porque estavas no meu coração. E tu sorrias…Esse sorriso tão lindo, tão mágico e cheio de luz…E dizias que me amavas, repetias tantas vezes que gostavas de mim. Eu ria e não dizia nada.


Ah…as saudades que eu tenho de ti.


Houve um dia em que não disseste que me amavas…e outro e outro…e depois um dia em não te vi…e outro e outro. Desapareceste de mim e eu só me apercebi agora…porque sinto a tua falta.

21 de julho de 2006

pling!


Uma gota fria, gelada, deliciosamente gulosa, doce. Precipitou-se furtivamente para o chão.
- Ai Luísa! Pingaste-me o pé!
- Desculpa!Não foi por querer...Mas também, quem te manda vir de dedinhos à mostra!?
Risos e um olhar de desafio.
-Eu estou no meu direito! É verão...Tu é que não tens nada que estar a lambuzar-te com o gelado!
A resposta desenrascada e ligeiramente insolente a esconder um sorriso.
- Ora essa! Tenho tanto direito quanto tu! E com tanta conversa só vais fazer com que o gelado derreta ainda mais....
- Já me calei!
As duas sentadas no muro de uma casa anónima. É verão, é fim de tarde. Está calor e estão cansadas, passaram o dia todo na praia e agora estão à espera dos amigos para jantarem juntos e sairem. Entretanto a Luísa ataca um gelado.
A serenidade dos dias de verão...momentos bem passados.

20 de junho de 2006

O sol não está aí...

Não procures o sol debaixo dos mal-me-queres, já sabes que não está lá. É escusado deitares o teu corpo na erva e procurares a luz que te dá calor. Vá lá...pareces uma criança. O sol está aqui ao pé de mim, porque não te sentas ao meu lado?Juro que te ponho o sol nas mãos, mas não o procures debaixo das flores, sabes bem que ele não tem razão nenhuma para se esconder...Não enquanto houver flores de todas as cores e feitios, não enquanto tu te divertires a encontrar joaninhas e a juntá-las. Sim, esse é outro hábito estranho, quando um dia te perguntei porque o fazias respondeste com altivez na voz e o balanço de quem adormece um bebé nas palavras, disseste que num planeta tão grande elas andavam todas perdidas e obviamente precisavam que tu as unisses. Para ti é sempre tudo tão óbvio.
Agora levanta-te, anda lá. Já te disse mais do que uma vez: o sol não está debaixo dos mal-me-queres.

29 de maio de 2006

Uma mão cheia de vento

O silêncio, o leve balançar do silêncio. O eco da ausência que desfaz a pele queimada da vida. A inconstância do vento que acaricia a alma.
Adoro o vento. Senti-lo enebriar-me os sentidos é tão libertador. Parece que o tempo pára, até o sol se demora mais no dia. É dos poucos momentos em que as palavras são realmente desnecessárias, dos poucos momentos em que a fúria transmite calma, quando o vento de tão violento nos faz esquecer as perturbações do quotidiano.
Não me importo de levar com areia quando estou deitada na praia, sei que se me levantar vou adorar sentir o vento na pele e a areia não me vai incomodar nada. Também não me importo de ter o vento nas minhas costas a revolver-me os cabelos, basta-me dar meia volta e oferecer-lhe um sorriso.
Gosto. Gosto tanto de estar sentada no meu baloiço com os tornozelos cruzados e os pés no ar, sentir as cordas a balançar com o vento, olhar a paisagem e apreciar as coisas simples da vida. Porque tenho a certeza que a felicidade é simples.

17 de maio de 2006

De cabelo atado e sorriso aberto passeava pela praia, toda a beleza do mundo concentrada nos seus pés que pisavam a cauda das ondas.Sorria, o mar conversava com ela, contava-lhe histórias de príncipes e princesas e beijava-lhe os pés com uma languidez poética. O sol queimava-lhe os ombros, atrevido e ciumento, enquanto ela acariciava a areia com o seu corpo. As ondas insistentes reclamavam a sua atenção constante, também o doce balançar do vento lhe sussurava histórias de outros tempos e lhe abraçava a pele num suave e reconfortante toque.A natureza degladiava-se e ela deliciava-se. Num passo mais firme sentiu algo afiado na planta do pé. Um fio de prata com um pendente em forma de estrela. Reluzia fortemente e estava em perfeito estado. Sentou-se na areia seca e enterrou os pés. Enquanto observava com atenção o fio, imaginava as hitórias que ele poderia guardar...e enquanto sonhava acordada, o sol, mais calmo, foi-se aproximando do mar.Ela pôs o fio ao pescoço e voltou a abrir o sorriso para a natureza.

7 de maio de 2006

Às vezes as palavras...


ficam perdidas no fundo de um olhar...

26 de abril de 2006

Raiva?

Sentimento estranho que revolve entranhas e destrói sorrisos.
Há sombras que se misturam, imagens que se revoltam e desaparecem, palavras que desvanecem com violência da mente. Há uma porta trancada com a fechadura roída pela ferrugem. Há uma janela que bate incessantemente e faz saltar a tinta branca da madeira, duas lágrimas contidas a encher os olhos, dois lábios cerrados, encostados a uma alma inquieta devastada pelo vento.
E depois há dedos nervosos a balançar agilmente a caneta, unhas frágeis entre os dentes irrequietos, uma respiração entrecortada que não deixa sossegado o coração. Há palavras arremessadas contra os momentos que magoam, palavras que escorregam suavemente na pele e deixam marca. Há olhares aflitos, há fotografias manchadas de sal, espaços vazios do sol, feridas abertas que sangram, cicatrizes escondidas...Punhais pousados nas mesas, espadas encostadas ao sofá.
Há um cheiro de luta no ar, mas as cores que vejo vêm das tuas lágrimas...

9 de abril de 2006

O gato espreguiçava-se com languidez no tapete da sala, as horas de sono profundo a reluzirem no lombo e aquele olhar de dolce far niente que se espalhava até aos bigodes. Ele, sentado no sofá tentava ler o jornal, mas as noticias eram sempre as mesmas, o mundo estava tão igual. A temperatura abrasadora lá fora não ameaçava aquela sala, recatada, acolhedora, como que um anexo à casa. Fora construída na parte poente e era forrada a vidro. Transbordava luz natural.
Havia uma aparelhagem a um canto que gemia canções calmas de outros tempos, um sofá largo e confortável que servia de abrigo nos dias mais pesados, um tapete espraiado no chão de madeira e a sustentar uma mesa com um jarro de flores. Junto à vidraça havia bancos com almofadas...a verdadeira suite do seu gato.
Ele gostava de se sentar no sofá e ver o por do sol sem sair de casa, gostava de ouvir música de olhos fechados, cada palavra...a vida começava a andar em câmara lenta...E os seus cabelos começavam já a ficar grisalhos.
Hoje desistiu do jornal. Chamou o animal para o seu solo e ficou a ver o sol adormecer enquanto lhe afagava a cabeça. E por momentos o tempo parou...

7 de abril de 2006

Como chocolate...

7 anos, sentado no sofá a ver o que a televisão lhe dá. Uma avó preocupada que quer que ele lanche. Ele não quer comer nada a menos que tenha chocolate...
- Mais chocolate não! - Diz a avó.
- Então não quero nada.
A avó olha para mim e pede-me ajuda, "vê lá se consegues fazer com que ele coma qualquer coisa de jeito"...Eu pergunto-lhe se quer lanchar comigo, digo-lhe que lhe preparo o leite e a tosta. Pergunto-lhe se não há nada que eu possa fazer para o lanche que ele queira. Ele diz que e não e passados uns minutos diz:
- Mas sabes, há uma coisa que podes fazer...
E eu pergunto o que é. Ele levanta-se e leva-me até ao sofá:
- Sentas-te aqui, assim...
Eu obedeci e ele saltou-me para o colo e abraçou-me.

2 de abril de 2006

Terra e Mar

Molhou os pés nus na água fria, o cabelo solto dançava-lhe nos ombros e caminhou pela praia até se cansar.
A maresia embalava a bainha do vestido e ela repousava o corpo, sentada no paredão. As ondas rebentavam à sua frente e ela nunca sentira frio perto do mar, mas hoje estava a tremer. Ele chegou e sem perguntar nada sentou-se ao lado dela, deu-lhe a mão e sorriu...ela olhou-o com ternura mas não retibuiu o cumprimento. Permaneceram assim de mãos dadas durante longos minutos, até que ele falou.
- Como estás?
Ela olhou para os seus pés, os dele ao seu lado. Olhou para ele e respirou fundo.
- Agora estou bem...gosto disto aqui.
Ele tirou o casaco preto e pousou-lho nos ombros delicados, puxou-lhe os cabelos para fora do agasalho. Ela sorriu e agradeceu. O negro do casaco pousado minuciosamente no bege claro do vestido. Ele abraçou-a e ela encostou a cabeça pesada no ombro dele.
- Tenho medo que isto um dia desapareça...
As palavras receosas e singelas, deixadas ao acaso na brisa do mar. A voz ainda de menina que pedia abrigo.
- Isto o quê?
- Tu e eu...
Um sorriso tímido.
Ele riu e apertou-a com força.
- Sabes bem que não se pode separar a terra do mar.

..my joe=)

30 de março de 2006

Do meu telhado vê-se o céu, é quase como se pudesse tocar-lhe, como se pudesse tocar as nuvens brancas, feitas de algodão. Quase como se pudesse pôr o sol a brilhar ainda mais.
No meu telhado consigo abraçar o vento e viajar em pensamento...E à noite posso desenhar com as estrelas e misturar sonhos no tecto da noite. Do meu telhado dou os bons-dias à manhã com mais ênfase, abraço o dia com um sorriso e salpico-o com sol e música e palavras de alegria. E eu gosto tanto do meu telhado, gosto de me sentar e esperar pelo fim da tarde quando o amarelo brilhante se funde no azul poente e não forma o verde. O amarelo mágico do sol estampado no azul suave do céu vai dar um laranja-rosado quente e muito doce. E fico por ali a ver esta conjugação de cores segura pela linha do horizonte, sentada no meu telhado de zinco e papelão...

27 de março de 2006

Viúva-do-ventre-liso

As mãos caídas no colo cansadas, os olhos fechados num sono inquieto. E sonhava. Sonhava com uma casa perto da praia, com três crianças a correr no jardim, uma menina e dois rapazes. O sonho repetia-se nas tardes solarengas e quentes na soleira da porta.
A roupa preta, num luto de cárcere, de tristeza suja. Um luto tão pesado e tão arrastado que já deixara de ser tão preto. E a cor das roupas passara-lhe para os olhos, agora restava-lhe uma cadeira de balouço no fim das tardes passadas no campo, nas hortas. Uma cadeira que lhe devolvia o sono e a noite, que lhe permitia os sonhos. Mas o que sonhava não variava conforme as tardes de verão ou de inverno, era sempre o mesmo...as três crianças a correr alegremente, ela a levar-lhes sumo de laranja para refrescar as brincadeiras, tantos sorrisos, tão perfeitos. E só quando acordava a meio da noite, assustada com o cantar nervoso dos grilos, se levantava languidamente da sua cadeira de balouço e se dirigia à cama...pensava em si e questionava-se onde estariam os netos que nunca teria e os filhos que nunca tinha tido.
A viúva-do-ventre-liso, chamavam-na. Nunca ninguém soube como isso a magoava.

23 de março de 2006


As palavras espalhadas nas folhas encardidas e velhas de um caderno qualquer. A rosa seca pousada minuciosamente ao seu lado. Sentada nas escadas, olhava com nostalgia para as suas mãos, estavam brancas, frias, secas como a rosa amarela caída do seu colo para o mármore.
Há quanto tempo já não sentia aquele calorzinho na barriga e nos dedos de quem está apaixonado?Aquela alegria escalarte de uma vida agitada cá dentro. A rosa morta conta-lhe que um dia fora tão feliz que quando se sentava naquela escada era numa espera nervosa por um sorriso maior que chegava antes do pôr-do-sol, invariavelmente.
E agora porque esperava? Uma gota salgada e quente caiu numa das mãos geladas. Sensação de perda. Não sabia porque esperava. Há muito tempo que deixara de esperar o que quer que fosse, há tanto tempo que as pétalas secas se começavam a desfazer...
Mas a verdade é que gostava de estar ali sentada, era sossegado e a espera infrutífera já não a incomodava. Mas mesmo depois de habituar a alma a uma calma dolorosa, ela não consegue evitar a expectativa.
E a sua alma seca continuava ali na esperança de um dia poder agradecer a rosa.

19 de março de 2006

Perdida na cidade

Os cabelos ondulam ao sabor do vento, compridos sem quererem parar. O pôr-do-sol ao lado dos seus olhos. Casas e prédios a perder de vista. Tudo isto é tão diferente, tão mais frio e triste, tão mais cheio de coisas e vazio de sentimentos e beleza.
Como se o estuque e o cimento pudessem substituir as pétalas a voar da flor da amendoeira. Como se o grunhir rude dos aviões pudesse alguma vez substituir o doce chilrear dos pássaros. Como se as sirenes aflitivas e as buzinas simultâneas se pudessem comparar com o remexer vivo dos melros nas folhas secas do chão. Como se o cheiro fabril das máquinas na cidade conseguisse um dia suplantar a miscelânea de aromas do campo. Como se as linhas rectas cobertas dum tapete vermelho sujo se pudessem confundir com as ondulações verdes da montanha.
E a noite chega, o sol esconde-se triste e esfaqueado por entre os arranha-céus. A lua cheia aparece quase transparente no lado oposto, desvanecida dentro duma plataforma de fumo e poluição. Uma noite onde as estrelas não estão plantadas no céu, estão nas ruas de alcatrão, amarelas, verdes, vermelhas...de tantas cores que perdem a beleza na sua ostentação.
Olha para o céu, estava à espera das estrelas...Mas com tanta luz na terra elas fogem, não chegam...aqui não há estrelas....

15 de março de 2006

Jack Johnson Pav. Atlântico, 13 Março 06

Numa Palavra: BRUTAL



Jack Johnson - Constellations

The light was leaving in west it was blue
The children's laughter sang
Skipping just like the stones they threw
Their voices echoed across the waves
It's getting late

It was just another night
With a sunset and a moonrise not so far behind
To give us just enough light
To lay down underneath the stars
We listened to Papa's translations
Of the stories across the sky
We drew our own constellations

The west winds often last too long
And when they calm down
Nothing ever feels the same
Sheltered under the Kamani tree
Waiting for the passing rain
Clouds keep moving to uncover the sea
Of stars above us chasing the day away
A way to find the stories that we sometimes need
Listen close enough all else fades
Fades away

It was just another night
With a sunset and a moonrise
Not so far behind
To give us just enough light
To lay down underneath the stars
Listen to all translations
Of the stories across the sky
We drew our own constellations

12 de março de 2006

Rebolas e dás cambalhotas

Rebolas e dás cambalhotas, saltitas animadamente, berlinde da minha alma, como se o mundo inteiro fosse feito de borracha colorida. Não te preocupa o empedrado na estrada nem os degraus danificados na casa da avó.
Carregas uma leveza invejável e nada do que tocas se desfaz, rebolas e dás cambalhotas na vida de qualquer um. Recusas-te a parar e aceitar um destino manso, recusas as amarras que te querem impor...
És um berlinde solto numa encosta da montanha, desces apressado, tropeçando e rodopiando conforme as árvores que encontras pelo caminho. E não sabes parar.

6 de março de 2006

"it's all about us!!"

A pedido de muitas famílias vou postar aqui a história que me vai levar na próxima segunda-feira ao pavilhão atlântico para ver Jack Johnson!!A MEGA FM promoveu um passatempo em que o objectivo era criar um filme original com as seguintes palavras/expressões que eram obrigatórias: Jack Johnson; MEGA FM LIVE; Upside Down; Surf; A Tua Música; Batatas; Um coelho a fugir; Óculos Escuros; Chinelos; Uma borbulha.

Um dia e tanto...Com gente suficientemente louca para o colorir!!=D


"A Paixão Consumida

Esta é a história desconcertante de uma batata surfista que nunca largava os seus óculos escuros e da imprevisibidade inquietante do seu encontro com o seu maior ídolo do surf, Jack Johnson.
...
Num dia solarengo e feliz o surfista e cantor passeava de chinelos a cantar distraidamente Upside Down e a pensar no Mega FM Live...ao passar por um café a bela batata ouviu a sua voz e tremeu! A questão era que a pobre batata, proveniente de um pacote de batatas humilde e honesto não fazia a mínima ideia de que o seu surfista de eleição cantava...e apaixonou-se desprevenidamente pela voz melodiosa e ritmada. O seu pobre coração acelerou desafiando os seus limites físicos, batia forte e velozmente como um coelho a fugir do caçador, a cada dia que passava e de cada vez que relembrava fantasiosamente a voz que lhe despertava tantas sensações mais o seu coração batia. E nem uma borbulha que impertinentemente se plantara na testa do seu amado amainara a paixão da batata.

No mundo das batatas este amor era alimentado platonicamente, os dias da batata eram construídos com suspiros, os mesmos suspiros apaixonados que fazem as nuvens voar e o sol brilhar com mais força...O sorriso da batata ameaçava fazer um enorme e sonoro “crack!” na estrutura da mesma e os seus olhinhos feitos de sal brilhavam tanto que havia batatas com dificuldade em dormir desde o dia em que a nossa batata tinha ouvido o seu agora amado cantar. Esta paixão electrizante da batata pelo surfista durava com a mesma intensidade há já várias semanas, a batata não escondia a tristeza de não ter ouvido de novo a voz do seu amado mas compreendia que ele estaria muito ocupado a preparar o seu próximo concerto...e a sua espera continuava, bem como o seu amor leve e poderoso. Até ao dia em que o Jack Johnson, ao passear na praia, sentiu um misto de gula e fome que resolveu saciar no café perto da praia, exactamente onde morava o pacote da nossa reguila batata. Depois de estar indeciso entre uns amendoins e um gelado, surpreendeu-se a comprar um pacote de batatas, exactamente o pacote que servia de morada à nossa protagonista. Ao dar-se conta de que o seu pacote estava nas mãos do seu cantor e surfista favorito, a alma da irrequieta batata elevou-a a mais puro nirvana. Jack ao saborear o seu pitéu na praia foi deglutindo o resto das batatinhas no pacote, distraído, quando encontrou a nossa pequena e arisca batata. Estranhamente achou-a diferente, ficou intrigado...Envolvido num súbito ataque de alegria agarrou nela dizendo entre versos de uma sua canção: "esta é a tua música!". E com um sorriso mergulhou-a no seu paladar e a batata foi para sempre feliz!
"

5 de março de 2006

"O teu coração faz-me sombra"

Disseste isso com uma jovialidade quase infantil, fizeste-me rir. Arregalaste os olhos à minha reação e reclamaste estares a falar a sério: "tens um coração grande demais para a tua estatura, miúda!". Eu sorri e ripostei que com a minha estatura isso não era difícil. Indiferente à minha diversão continuaste a falar do meu coração, disseste que era feito de gelatina, esticava e resistia mas também partia. Que por ser tão fléxivel deixava entrar muita gente. E esta frase foi dita com uma pitada de ciúme que não conhecia em ti.
- Como é que eu te conquistei? - perguntei enquanto apreciava esses olhos esmeralda. Sorriste.
- É fácil...Tu tens um coração de gelatina e tu sabes que eu adoro gelatina. Mudaste-lhe o sabor de ananás para morango e pronto, caí aos teus pés!
Ri com vontade.
- A sério...Conta lá!
- Tu lá terias as tuas armas, sei lá. Diz-me tu o que fizeste!
- Eu não fiz nada! Só não percebo porque que é que ficaste com a gelatina com tanta sobremesa mais requintada por aí...
Sorris e mergulhas os teus olhos nos meus.
- Porque só o teu coração de gelatina me conseguiu fazer sombra...

23 de fevereiro de 2006

Cansaço...

Encosta a cabeça ao braço, a alma pesa-lhe menos nesta posição. Os dedos estão frios mas não incomodam, os ombros doem. O frio misturado perigosamente com uma angústia inquieta que vem sabe-se lá de onde. Os lábios estão secos, pregados um no outro, a língua espessa provoca uma dor na garganta que desagrada como engolir xarope amargo. Sente o olhar cansado de quem espera sem saber, de quem dorme sem acordar, de quem descansa num vão de escada esquecido.
Há uma lágrima encostada ao coração e ela sabe que muitas outras lágrimas virão em catadupa, embatendo bruscamente contra o seu peito. Os olhos não ardem, não brilham, não reagem...Estão nublados, cinzentos, cobertos de tudo o que pode passar por cansaço. Alguém lhe pousa a mão no cabelo:

- Então, estás cansada?

Um sorriso desmaiado...

- Sim, estou exausta.

20 de fevereiro de 2006

5 habitos estranhos...

epah...é complicado...poix..ja m foi feito o desafio...mas estou reticente! ms la vms:

1- Tesouras abertas, não suporto, passo a vida a fechar tesouras em todo o lado.Superstição ou não, a verdade é que também me atrapalham talheres cruzados...=/

2-Não consigo dormir sem por baton do cieiro, não dá.

3-Durmo na maioria das vezes virada po lado direito, mesmo que esteja de barriga para baixo e tenho a mania de que o meu pescoço vira melhor para esse lado..=X

4-No verão ando sempre de relógio e consigo dormir com ele apesar do barulho, no inverno simplesmente não o uso.

5-Quando faço alguma festa a uma das minhas cadelas tenho que fazer também às outras, nem consigo pensar em mais nada se n o fizer...=S


Pah pronto...sim sou um bixo estranho, ms axo k ja tds sabiam...=D

Eu também sei voar.

Passeia as mãos pelo lençol quente, vazio agora, com a forma difusa de alguém que um dia lhe aqueceu a alma. Tenta fugir, voar para longe daquela prisão, daquele vazio que incoerentemente lhe pesa no coração, as asas recusam-se a abrir, tem medo de não ter um novo abrigo para pousar o espírito. Levanta-se atirando os lençóis brancos para o fundo da cama, enfia os pés nos chinelos, mecanicamente, e o instinto leva-lhe a mão ao cabelo e depois à boca num bocejo.
Há quantos dias é assim? O mesmo peso ao deitar e ao levantar, a mesma angustia que nasce não sabe de onde, que se planta no fundo de tudo e que se espalha como o mercúrio de um termómetro partido.
Os passos lentos, lânguidos, sem direcção levam-na até à janela. A luz irrompe arrogantemente alegre e viva, no entanto, após consentir a sua entrada no quarto, vira-lhe as costas na indiferença da anomia que sente. Senta-se na cama, a boca sabe-lhe a manhã de verão, a perfume do calor do sol e as mãos ainda estão dormentes, o sangue ainda não circula normalmente no seu corpo todo. Junta os joelhos ao queixo e abraça as próprias pernas, nesta posição sente-se protegida, escondida num canto escuro do mundo, onde ninguém a pode perturbar. O silêncio. Sabe-lhe bem escutar o silêncio ecoar na alma, quase como ver os raios de sol numa manhã de chuva.
O quarto cheira a maçã, incenso que queimou ao mesmo ritmo que os seus olhos se queimaram com lágrimas, há um pássaro que canta pretensioso e impertinente lá fora. E ela pensa que há muitos pássaros assim, que cantam na nossa janela e no nosso ouvido e depois voam, logo quando começamos a gostar do seu canto, eles fogem. Levanta o queixo dos joelhos, estica as pernas e deixa-se cair no colchão, diz alto: Eu também sei voar.

14 de fevereiro de 2006


Há palavras que não sinto, palavras que passam por mim sem me tocar...Há frases que não incomodam, não fazem barulho nem ficam a saltitar na mente.
Mas também há palavras que magoam, fazem estragos que nem sempre gostamos de admitir.Também há frases que nos instigam a alma sem respeito e nos pisam o coração sem remorsos.
Há ainda as palavras doces, que sabem a chuva e a rosas, que aquecem as mãos e a face, que fazem os olhos brilhar e os lábios sorrir. Frases que se balançam entre um sorriso e outro, que se penduram na alma e cantam.
As palavras...uma arma.Não sou a primeira a dizê-lo e com certeza não serei a última. Uma arma, que pode ferir ou curar.
O poder está nas palavras...sempre esteve.

27 de janeiro de 2006

O pirilampo

Da janela aberta ouviu um suave zumbido, levantou-se e observou, curiosa, a origem do zumbido. De repente, algo brilhou, uma luz amarelada, forte, mágica. Era um pirilampo.
- É um pirilampo! – Mãe vem ver! É um pirilampo igualzinho ao do meu livro, só que este brilha de verdade!
Não pude evitar sorrir, ela estava realmente contente. Levantei-me e aproximei-me da janela também. Beijei-lhe os cabelos lisos e muito escuros. Eufórica, pediu-me que apanhasse o pirilampo para o poder ter no seu quarto.
- Não, Marta não podemos prendê-lo, também não ias gostar se um dia um gigante te achasse muito engraçada e te prendesse em casa dele, pois não?
- Não mãe, mas...
Os olhos arregalados prendiam toda a excitação.
- Mas tu queres vê-lo mais vezes, não é?
- Sim... - respondeu resignada.
- Ele parece gostar do parapeito da tua janela, se não o assustarmos pode ser que ele fique aqui e assim vais poder tê-lo ao pé de ti sem estar preso.
Mostrou um largo sorriso que deixou transparecer a magia que todas as crianças têm quando estão realmente felizes. Ouvimos uma chave na porta e o barulho da mesma ao fechar-se. A marta abriu os olhos e estes brilharam como diamantes.
- O papá já chegou! Vou chamá-lo para poder ver o pirilampo!
Saiu a correr do quarto e ouvi-a convencer o pai exausto a dar atenção a um pirilampo. Passados alguns minutos ouve-se um suspiro.
- Está bem, minha querida, vamos lá ver esse bicharoco.
Entraram os dois no quarto, a marta a puxar pela mão do pai. Ele veio dar-me um beijo e a nossa filha arrastou-o até à janela a apontou para o pequeno insecto.
- Muito giro... – disse, quase inexpressivo, o pai. Ao ver esta passividade, a Marta foi buscar o livro onde vira pela primeira vez um pirilampo, mostrou-o ao pai.
- Olha, é igual! Vês? Mas o que está na janela brilha mesmo! E este está só pintado de amarelo...
Um sorriso cansado.
- Muito lindo, menina Martinha! Mas não estará na hora de dormir..??
Ela fechou o livro desconsolada...
- Oh papá!
- Sim, sim...tem que ser, o teu pirilampo também vai dormir, amanha arranjamos-lhe um nome.
A Marta mostrou um grande sorriso e foi logo buscar o pijama. Enquanto o meu marido comeu qualquer coisa, eu li uma história à pequena até adormecer. Depois de um dia cansativo soube bem ter a alegria de um pirilampo.

23 de janeiro de 2006

A lua desmaiou nas minhas mãos.

Não lhe pedi que me desse atenção, mas sorriu-me e fechou os olhos, caiu-lhe uma lágrima e desfaleceu encaixando-se nos meus dedos. Foste tu que a magoaste? Foste tu que disseste que não a ias voltar a ver, que já não te importavas com as formas que ela tomava? Como foste capaz de entristecer a lua...Desperdiçaste todos os sorrisos que ela trabalhou para ti, todas as noites que ela esperou por ti e percorreu o céu à tua procura. Sabias que todas as noites, invariavelmente, ela acabou a chorar no mar? E que cada vez que vislumbrava o reflexo da tua luz se recompunha e sorria...e nunca foste capaz de olhar para ela, não sabes de que cor são os seus olhos, pois não?
O mar ouvia-a e calava-se, coleccionava as suas lágrimas mas nunca foi capaz de te fazer perceber o que se passava, porém hoje ela veio e falou comigo, foi a mim que ela contou que te amava e que tu nem sabias qual era o seu cheiro. E eu não consigo guardar a revolta, se a reprimir ela vai alargar barreiras e destruir diques e vai acabar por se fazer sentir. Não me peças desculpa...não sou eu que tenho um rasgão do teu punhal no peito. Olha para a lua e sussurra-lhe que gostas dela, pode ser que um dia ela acredite e volte a sorrir para ti.

20 de janeiro de 2006

17 de janeiro de 2006


Olhamos através da janela e achamos que batemos no fundo, penduramos as mãos na nuca e suspiramos, a mente tão cheia e tão vazia incomoda-nos como roupa molhada...
O coração bate apertado, resumido a um órgão grande demais para uma alma diminuta, os olhos cansados procuram o auxílio das lágrimas que reprimimos com toda a nossa racionalidade...
Há dias assim em que tudo foge ao nosso controlo e a vida corre sem nos dar satisfações, dias em que por mais que o sol brilhe não conseguimos levantar a cabeça com vontade de sorrir. Mas virão dias melhores em que a nossa rotina finalmente encaixa connosco e nada do que nos perfura o coração tem lugar.
Entretanto saltitamos de dia em dia à espera...à espera...à espera de dias melhores. E eles virão, repetimos que eles virão e acabamos mesmo por acreditar que é verdade...até que voltam dias assim, cabisbaixos, pesados que nos deixam com dores nos ombros e vinte quilos na conjuntura muscular, e esses dias ficam...permanecem como nódoa seca nas toalhas de mesa, sem que haja um detergente milagroso que as lave. E vão manchando a nossa felicidade perfeita...

13 de janeiro de 2006

Mas...

Havia uma leveza no andar, uma alegria inconsciente no falar e uma sedução ingénua no sorriso. Um passar de dias coloridos, um fluir de palavras sem preocupações...Caminhava despreocupadamente com os braços soltos no balançar das suas pernas, o mundo não lhe pesava nos tornozelos, mas houve alguém que lhe deu a mão. Alguém que lhe tocou os dedos como ninguém tinha feito, alguém que lhe tentou aquecer as mãos sempre geladas, alguém que sem querer ficou preso e por vingança a prendeu. E esse alguém fez questão de desarrumar tudo e perder no meio da confusão algo valioso, algo que agora ninguém quer procurar.

12 de janeiro de 2006

A leveza da inocência

Tenho saudades do tempo em que a vida era leve...E o mundo para mim era feito com quatro casas, uma dúzia de adultos e outras tantas crianças...e eu podia fazer dum banco num barco um carrosel...

É tão bom ser-se criança!

6 de janeiro de 2006

Um segredo


Contaram-lhe um segredo. Um pedacinho de alguém que não sabia o que era sonhar, soube guardá-lo…Soube que o segredo ia crescer e soube que um dia ia ser maior que ele. Mesmo sabendo que esse pequeno segredo lhe iria consumir a alma, recusou-se a partilhá-lo, nunca se desfez dele. Às vezes sozinho a lutar contra a insónia, pensava nesse segredo e sentia-se pesado, sentia que lhe fazia falta alguém a quem pudesse contar o segredo…mas nunca o contou.
Alguns segredos são assim, saltam-nos para as mãos sem pedir licença e depois queimam-nos os olhos e os dedos por não podermos deixá-los ir, ardem na nossa pele como um castigo. Mas depois de doerem, acalentam, sossegam os nervos e nós empurramo-los pretensiosamente para o mais obscuro canto do nosso ser. E há tantos segredos que se transformam em sorrisos, que se tornam parte de nós, que se desfazem em pedaços e nunca nos deixam realmente.

3 de janeiro de 2006

Um pouco..


"Só hoje senti
Que o rumo a seguir
Levava pra longe
Senti que este chão
Já não tinha espaço
Para tudo o que foge"
"Um pouco de céu" - Tatuagem, Mafalda Veiga