27 de janeiro de 2006

O pirilampo

Da janela aberta ouviu um suave zumbido, levantou-se e observou, curiosa, a origem do zumbido. De repente, algo brilhou, uma luz amarelada, forte, mágica. Era um pirilampo.
- É um pirilampo! – Mãe vem ver! É um pirilampo igualzinho ao do meu livro, só que este brilha de verdade!
Não pude evitar sorrir, ela estava realmente contente. Levantei-me e aproximei-me da janela também. Beijei-lhe os cabelos lisos e muito escuros. Eufórica, pediu-me que apanhasse o pirilampo para o poder ter no seu quarto.
- Não, Marta não podemos prendê-lo, também não ias gostar se um dia um gigante te achasse muito engraçada e te prendesse em casa dele, pois não?
- Não mãe, mas...
Os olhos arregalados prendiam toda a excitação.
- Mas tu queres vê-lo mais vezes, não é?
- Sim... - respondeu resignada.
- Ele parece gostar do parapeito da tua janela, se não o assustarmos pode ser que ele fique aqui e assim vais poder tê-lo ao pé de ti sem estar preso.
Mostrou um largo sorriso que deixou transparecer a magia que todas as crianças têm quando estão realmente felizes. Ouvimos uma chave na porta e o barulho da mesma ao fechar-se. A marta abriu os olhos e estes brilharam como diamantes.
- O papá já chegou! Vou chamá-lo para poder ver o pirilampo!
Saiu a correr do quarto e ouvi-a convencer o pai exausto a dar atenção a um pirilampo. Passados alguns minutos ouve-se um suspiro.
- Está bem, minha querida, vamos lá ver esse bicharoco.
Entraram os dois no quarto, a marta a puxar pela mão do pai. Ele veio dar-me um beijo e a nossa filha arrastou-o até à janela a apontou para o pequeno insecto.
- Muito giro... – disse, quase inexpressivo, o pai. Ao ver esta passividade, a Marta foi buscar o livro onde vira pela primeira vez um pirilampo, mostrou-o ao pai.
- Olha, é igual! Vês? Mas o que está na janela brilha mesmo! E este está só pintado de amarelo...
Um sorriso cansado.
- Muito lindo, menina Martinha! Mas não estará na hora de dormir..??
Ela fechou o livro desconsolada...
- Oh papá!
- Sim, sim...tem que ser, o teu pirilampo também vai dormir, amanha arranjamos-lhe um nome.
A Marta mostrou um grande sorriso e foi logo buscar o pijama. Enquanto o meu marido comeu qualquer coisa, eu li uma história à pequena até adormecer. Depois de um dia cansativo soube bem ter a alegria de um pirilampo.

23 de janeiro de 2006

A lua desmaiou nas minhas mãos.

Não lhe pedi que me desse atenção, mas sorriu-me e fechou os olhos, caiu-lhe uma lágrima e desfaleceu encaixando-se nos meus dedos. Foste tu que a magoaste? Foste tu que disseste que não a ias voltar a ver, que já não te importavas com as formas que ela tomava? Como foste capaz de entristecer a lua...Desperdiçaste todos os sorrisos que ela trabalhou para ti, todas as noites que ela esperou por ti e percorreu o céu à tua procura. Sabias que todas as noites, invariavelmente, ela acabou a chorar no mar? E que cada vez que vislumbrava o reflexo da tua luz se recompunha e sorria...e nunca foste capaz de olhar para ela, não sabes de que cor são os seus olhos, pois não?
O mar ouvia-a e calava-se, coleccionava as suas lágrimas mas nunca foi capaz de te fazer perceber o que se passava, porém hoje ela veio e falou comigo, foi a mim que ela contou que te amava e que tu nem sabias qual era o seu cheiro. E eu não consigo guardar a revolta, se a reprimir ela vai alargar barreiras e destruir diques e vai acabar por se fazer sentir. Não me peças desculpa...não sou eu que tenho um rasgão do teu punhal no peito. Olha para a lua e sussurra-lhe que gostas dela, pode ser que um dia ela acredite e volte a sorrir para ti.

20 de janeiro de 2006

17 de janeiro de 2006


Olhamos através da janela e achamos que batemos no fundo, penduramos as mãos na nuca e suspiramos, a mente tão cheia e tão vazia incomoda-nos como roupa molhada...
O coração bate apertado, resumido a um órgão grande demais para uma alma diminuta, os olhos cansados procuram o auxílio das lágrimas que reprimimos com toda a nossa racionalidade...
Há dias assim em que tudo foge ao nosso controlo e a vida corre sem nos dar satisfações, dias em que por mais que o sol brilhe não conseguimos levantar a cabeça com vontade de sorrir. Mas virão dias melhores em que a nossa rotina finalmente encaixa connosco e nada do que nos perfura o coração tem lugar.
Entretanto saltitamos de dia em dia à espera...à espera...à espera de dias melhores. E eles virão, repetimos que eles virão e acabamos mesmo por acreditar que é verdade...até que voltam dias assim, cabisbaixos, pesados que nos deixam com dores nos ombros e vinte quilos na conjuntura muscular, e esses dias ficam...permanecem como nódoa seca nas toalhas de mesa, sem que haja um detergente milagroso que as lave. E vão manchando a nossa felicidade perfeita...

13 de janeiro de 2006

Mas...

Havia uma leveza no andar, uma alegria inconsciente no falar e uma sedução ingénua no sorriso. Um passar de dias coloridos, um fluir de palavras sem preocupações...Caminhava despreocupadamente com os braços soltos no balançar das suas pernas, o mundo não lhe pesava nos tornozelos, mas houve alguém que lhe deu a mão. Alguém que lhe tocou os dedos como ninguém tinha feito, alguém que lhe tentou aquecer as mãos sempre geladas, alguém que sem querer ficou preso e por vingança a prendeu. E esse alguém fez questão de desarrumar tudo e perder no meio da confusão algo valioso, algo que agora ninguém quer procurar.

12 de janeiro de 2006

A leveza da inocência

Tenho saudades do tempo em que a vida era leve...E o mundo para mim era feito com quatro casas, uma dúzia de adultos e outras tantas crianças...e eu podia fazer dum banco num barco um carrosel...

É tão bom ser-se criança!

6 de janeiro de 2006

Um segredo


Contaram-lhe um segredo. Um pedacinho de alguém que não sabia o que era sonhar, soube guardá-lo…Soube que o segredo ia crescer e soube que um dia ia ser maior que ele. Mesmo sabendo que esse pequeno segredo lhe iria consumir a alma, recusou-se a partilhá-lo, nunca se desfez dele. Às vezes sozinho a lutar contra a insónia, pensava nesse segredo e sentia-se pesado, sentia que lhe fazia falta alguém a quem pudesse contar o segredo…mas nunca o contou.
Alguns segredos são assim, saltam-nos para as mãos sem pedir licença e depois queimam-nos os olhos e os dedos por não podermos deixá-los ir, ardem na nossa pele como um castigo. Mas depois de doerem, acalentam, sossegam os nervos e nós empurramo-los pretensiosamente para o mais obscuro canto do nosso ser. E há tantos segredos que se transformam em sorrisos, que se tornam parte de nós, que se desfazem em pedaços e nunca nos deixam realmente.

3 de janeiro de 2006

Um pouco..


"Só hoje senti
Que o rumo a seguir
Levava pra longe
Senti que este chão
Já não tinha espaço
Para tudo o que foge"
"Um pouco de céu" - Tatuagem, Mafalda Veiga