- Porque é que fechaste a porta?
Um sorriso óbvio e saboroso:
- Porque vou abrir todas as janelas!
De olhos fechados sente o vento frio na cara. O sol abandona-se suavemente ao fim do dia e pousa no horizonte. Os dias são uma sucessão de desejos e vontades, guerras e batalhas que nem sempre podemos vencer. E, nos intervalos da rotina, há pormenores que enchem as horas de cor e o peito de ar puro.
Um dia algo acontece. Não o prevíamos nem o queríamos, mas acontece. E tudo muda, para o bem e para o mal. Sem sabermos, encaixamos numa sequência que não foi projectada por nós e tudo parece estar fora de controlo. Desmoronam palavras, pedras, portas e paredes. Os alicerces, que um dia foram o nosso porto seguro, caíram inertes no chão.Era já noite de um dia qualquer. Era já noite de uma semana sem te ver.
A lua altiva e orgulhosa encheu-se de brilho e brio para me encantar. Deixou-me os olhos a brilhar, as mãos nervosas e os lábios trémulos. E sem me aperceber soube que estava apaixonada, pela sua forma suave, pela sua luz sumptuosa.
E agora diz-me, como podes tu ignorar a lua e quereres-me a mim. Como podes desconhecer o seu brilho que dá luz às noites: a todas as noites.
São pequenas infâmias as palavras que atiras em perguntas levianas sobre a lua. São amenas dores que me provocas, apertos no peito, agulhas na alma, quando dizes que não encontras a lua e que nem sequer a procuraste.
Revoltas-te, argumentas que não tens tempo, estás cansado. Mas será o cansaço maior do que o espaço que o teu pensamento guardou para mim?
E beijaste-me, precipitadamente, de forma descuidada. Distraído e preso a outras cordas, mais brilhantes do que os meus abraços. Apertaste-me e eu fugi. Corri para onde os teus dedos não me pudessem alcançar: nessa noite percebeste que tinhas de me dividir com a lua.
dor que o meu silêncio provoca. Deixa-me ser este forte de pedra que não deixa entrar ameaças, que protege alguma coisa de pouca importância.
Cruzas os dedos com força enquanto mordes o lábio. Sei que desejas que tudo corra bem e também sei que tens medo que tudo corra mal. E tu sabes que eu acredito em ti. Ontem, quando te disse que ia estar sempre aqui para ti, não te menti. Mas quero que acredites em ti mesma. Quero lavar-te dessa insegurança que te faz tremer as mãos e a voz. Porque tu sabes que vou absorver cada lágrima que fizeres deslizar no teu rosto e vou beber da tua dor como se fosse minha.
A manhã acordou cinza. Escura e fria, com a expressão de quem acorda aborrecido e tem dificuldade em abrir os olhos. O sol estava preguiçoso, reticente em assumir a posição dominante a que nos habituou.
O silêncio arranja forma de transmitir o que queremos esconder. Resgata tudo o que não sabemos como falar ou escrever, salva as palavras que insistimos em esquecer. E em serena aquietação esperamos que ninguém perceba o que enfeitamos em sorrisos para não nos desfazermos de nós.
Hoje quero reescrever todas as palavras. Reaprender todas as letras e voltar a espalhá-las no chão da minha mente. Esquecer todas as frases e refazer todos os parágrafos, como se fosse a primeira vez.
.
Foi na mão dele que repousaste os teus sonhos e frustrações. Foi nos braços dele que adormeceste serena, sem esperar o amanhecer. Sonhaste com abraços e discussões, uma vida inventada pelo teu inconsciente inseguro. Mas foi nos olhos dele que te perdeste mais uma vez...não nos meus.
chega para a acalmar. Há algo que falta, uma peça que já não sabe como se encaixar.
Agora que o sol nasce pede à lua para esquecer o que viu. Conta-lhe que um coração que abraça os sorrisos efémeros sofre mais no fim, explica-lhe que os dedos entrelaçados não duram para sempre e que há muitas razões para esquecer.
O teu silêncio aperta-me os pulsos. Não sei ser, sozinha, aquilo que me ensinaste a ser contigo. E esta espera põe-me o coração em desassossego. Sem querer, espero por uma palavra tua, algo que me diga que não esqueceste os meus lábios. Não sei como te expulsar do pensamento…não quero esquecer-te, mas não quero lembrar-me de ti. Quero saber arrumar-te, esconder-te no fundo de uma caixa de cartão poeirenta. Encostar-te a um canto escuro e esperar que um dia eu tropece na caixa cheia de coisas indefiníveis e veja o teu sorriso. Talvez nesse dia possa ser eu a dizer-te que não esqueci o teu toque. Por agora vou empurrar-te para o lugar mais recôndito da minha mente. Onde seja difícil encontrar-te nos minutos vazios do dia-a-dia. Porque não gosto que me apertem os pulsos.
a esperança de um novo começo.
Os olhos cravados nas mãos vazias dele:
Inacabado sim, quando a tua mão se desvia subtilmente da minha e os teus olhos já não sabem quem sou. Incompleto porque me falta o calor da tua pele.
porfia em entristecer as ruas. E as estrelas escondem-se diminutas atrás de nuvens escuras. Ele segue em passos firmes sem direcção, alheio, absorto, perdido.